Análise Crítica da Regra Shove/Fold das 10BB
Introdução
Neste artigo
- Refutando uma Regra Absoluta das 10 BB
- Balanceamento do teu leque de mãos para mini-raise
- Antes e ICM
Há uma regra amplamente citada nos torneios de poker que exige uma estratégia de shove-ou-fold quando se tem uma stack de 10 BB. Embora não haja uma única fonte para esta regra, os seus defensores podem expressá-la da seguinte forma:
“Com uma stack efetiva de 10 BB ou inferior, no pré-flop deves optar por fazer shove ou fold, mas nunca limp ou um raise pequeno.”
Neste artigo, vamos analisar o quão correta é a regra das 10 BB em diferentes situações.
Refutando uma Regra Absoluta das 10 BB
Não é difícil refutar esta regra se a considerarmos como absoluta.
Aqueles que argumentam que a regra das 10 BB pode ser aplicada universalmente têm que demonstrar que em qualquer situação onde a stack efetiva é de 10 BB ou inferior, um limp ou um pequeno raise são opções inferiores em termos de EV quando comparadas com o fold ou shove. Contudo, para provar que esta regra nem sempre é válida, basta dar um único contra-exemplo.
Blinds: $50-$100
A nossa mão:
Ação: Toda a gente faz fold até nós que estamos no botão. Temos uma stack de $1.000, tal como ambas as blinds. Ambas as blinds têm leques de mãos defensivos estáticos do top 20% de mãos, com as quais farão 3-bet/shove se fizermos um pequeno raise, e call se optarmos por um shove.
Questão: Devemos optar pelo fold, mini-raise ou shove?
Análise: Ignorando o efeito de remoção de cartas, ambos os jogadores farão fold 64% das vezes (80% x 80%). Portanto, se fizermos mini-raise, o nosso EV é dado por:
EV = Probabilidade (Ambos fazem fold) x Recompensa (Ambos fazem fold) + Probabilidade (Pelo menos um defende) x Recompensa (Pelo menos um defende)
= 64% x $150 + 36% x (-$200)
= $24
Agora suponham que optamos pelo shove. Ganhamos os mesmos $150 em 64% dos casos, mas nos restantes 36% estamos (na melhor das hipóteses) a pagar $1.000 para 29,2% de equity num pote de $2.100, para uma perda a rondar os $387. Por isso, o EV do shove será no máximo -$43,32, ou inferior se o caller for a big blind -- dando-nos menos overlay -- ou ambos darem call.
O EV de fazer raise/fold de uma quantia superior também deve ser inferior ao EV de fazer mini-raise, uma vez que simplesmente vamos perder mais vezes nos casos em que levamos com shove, mas temos a mesma recompensa para um roubo bem sucedido.
O EV de fazer fold é $0.
Como tal, o mini-raise é uma melhor opção em relação ao fold ou shove.
Nota que é bastante difícil calcular o EV do limp devido ao número de suposições envolvidas, mas é provável que seja -EV pagar voluntariamente 10% da tua stack para te envolveres contra uma ou duas mãos aleatórias com cartas baixas offsuit.
Por fim, assumimos nesta mão que estamos a jogar um cash game ou MTT onde podemos utilizar com segurança uma análise chip EV. Mais tarde iremos ver como a adição de uma ante ou quadro ICM modifica os nossos resultados.
O Contra-Argumento

Eu não discordaria necessariamente desta última afirmação. Na verdade, nos meus primeiros artigos, eu defendia o uso do shove/fold com stacks de 10 BB. Um dos argumentos iniciais a favor do shove/fold é que quando a stack efetiva fica tão pequena, com um pequeno raise ficas logo comprometido com o pote. Contudo, com uma stack de 10 BB, esse argumento já não é assim tão verdadeiro. Se optares por um mini-raise e a big blind responder com um shove, o pote será de 12,5 BB, e para dar call tens que pagar 8 BB. Com odds pouco acima de 3:2, por vezes é razoável fazer fold.
Só quando a stack efetiva desce até cerca das 6 BB é que um raise te deixa comprometido. Se efetuares um mini-raise com uma stack de 6 BB e a big blind responder com um shove, o pote fica na altura com 8,5 BB e custa-te 4 BB para dar o call. Nesse caso, estás comprometido.
Então, quando é que deves optar por fazer um mini-raise quando estás short-stacked?
Os melhores jogadores contra os quais podemos fazer um pequeno raise com uma stack de 7-10 BB são os adversários tight e previsíveis que raramente farão flat-call com pequenas stacks efetivas, e farão 3-bet shove de um leque de mãos tight similar àquele com o qual teriam feito call a um shove.
Os melhores jogadores contra os quais usamos shove/fold são aqueles que defenderão mais loose contra pequenos raises. Contra este tipo de adversário continuas a poder fazer pequenos raises, mas deves balancear o teu leque de mãos para mini-raise - o tópico da nossa secção seguinte.
Balanceamento do teu leque de mãos para mini-raise
Tal como já foi dito anteriormente, contra adversários tight e previsíveis, como por exemplo os regulares nitty de multi-tabling SNGs, podes muitas vezes fazer impunemente mini-raises de exploração. Enquanto que também deves fazer pequenos raises com mãos premium, tais jogadores vão muitas vezes continuar a deixar que roubes as blinds de forma incessante, não percebendo que podiam fazer uma 3-bet mais loose e tu terias que fazer fold de uma grande parte do teu leque de mãos.
Contudo, contra bons jogadores que pensam o jogo, tens que considerar a tua estratégia geral em vez de olhar para mãos individuais por si só. Quando se joga contra este tipo de adversário, as tuas duas opções são simplesmente manter um jogo de shove/fold, ou adicionar ao teu leque de mãos, mãos fortes suficientes para raise/call para que estes jogadores não te possam explorar através de 3-bets mais loose. Enquanto que shove/fold é uma estratégia mais fácil de implementar, uma grande vantagem de fazer pequenos raises é que poderás jogar mais mãos - isto é, não ficarás restrito a jogar apenas mãos que são rentáveis para shove de abertura.
Quanto mais loose o teu adversário fizer 3-bet shove, maior é o número de mãos com que deves fazer raise/call em vez de raise/fold. Por exemplo, supõem que estás no botão com uma stack efetiva de 10 BB e tens pela frente uma small blind tight-passiva e uma big blind bastante LAG que faz 3-bet em 50% dos casos. Neste caso, nunca deves fazer raise/fold, porque ganharás $150 no máximo em metade dos casos, uma vez que a SB por vezes também fará 3-bet, e perderás $200 em mais de metade das vezes. Contudo, qualquer mão dentro de aproximadamente o top 25% das mãos, será suficientemente forte para fazer um pequeno raise com o objetivo de dar call ao shove da big blind.

Nota também que só pelo facto de que fazes muitas vezes pequenos raises, isso não significa que nunca podes fazer shove de abertura. Com boas mãos para semi-bluff como pares pequenos, ases pequenos, e suited connectors médios, ainda podes fazer shoves de abertura, optando por fazer pequenos raises com um leque de mãos polarizado - mãos fracas com as quais pretendes fazer fold e mãos fortes com as quais pretendes dar call.
Uma categoria de jogador que ainda não abordamos é o jogador loose-passivo. A tua estratégia com uma stack de 10 BB e defrontando adversários loose-passivos deve depender da forma como respondem a shoves vs. pequenos raises. Um jogador loose-passivo fará call a um mini-raise com muitas mãos, mas enquanto que alguns também fazem call mais loose, outros passam a jogar significativamente mais tight quando confrontados com all-ins. Por isso, a decisão entre fazer shove de abertura ou um pequeno raise deve ser adaptada aos teus adversários específicos.
Antes e ICM
Vamos concluir olhando para o impacto das antes e do ICM na nossa análise.
A partir de um determinado valor de stack em big blinds, as antes devem fazer com que te inclines mais para o shove de abertura do que para o pequeno raise. A razão por trás desta última afirmação são as pot odds que te são oferecidas num call quando um adversário faz shove. Por exemplo, supõem que as blinds estão em $4.000-$8.000-$1.000, 9-handed, e a stack efetiva é de 10 BB ou $80.000. Se fizeres mini-raise e levas com um shove da big blind, o pote é de $109k e para dar call tens que pagar $60k. Estás muito mais perto de 2:1 num call, por isso, enquanto que o raise/fold continua a ser uma opção viável contra adversários muito tights e previsíveis, deves estar mais inclinado para o shove de abertura para ganhar a grande quantia que está no centro da mesa, isto em comparação com as mesmas stacks e blinds e sem uma ante.
Entretanto, a taxa de ICM tem efeitos mistos no shove de abertura vs. a decisão de um pequeno raise. Uma vez que as fichas diminuem em valor, é muito mais sensato declinar boas pot odds e depois fazer fold do mini-raise para preservares a tua stack. Contudo, os bons jogadores podem explorar este facto e efetuar 3-bets mais loose, forçando-te a arriscar as tuas fichas mais valiosas ou a fazer fold. Contra este tipo de adversários, é vital ter a vantagem de agir primeiro para que sejas tu a forçá-los a colocar as suas stacks em risco.
Por exemplo, supõem que estás na bubble de um 9-man SNG em que toda a gente tem aproximadamente stacks de 10 BB. Contra bons jogadores, que gostam de pensar o jogo, eles sabem que a taxa de ICM é tão elevada que se tu fizeres um pequeno raise, normalmente terás que fazer fold perante um shove. Contudo, enquanto que estes adversários podem fazer um shove rentável de muitas mãos para cima de um raise de abertura, existem poucas mãos com as quais podem fazer um call rentável a um shove de abertura. Por isso, nesta situação deves principalmente fazer shove de abertura ou fold, a menos que estejas a defrontar adversários tight e previsíveis que raramente alargarão o seu leque de mãos de 3-bet.
Conclusão
Apesar de muitas vezes teres que fazer shove ou fold com uma stack efetiva de 7-10 BB, existem muitas situações onde deves fazer, em vez disso, um pequeno raise. Só quando tiveres mesmo uma stack de aproximadamente 6 BB ou menos é que o shove ou fold se tornam essencialmente nas tuas duas únicas opções. A melhor altura para fazer um pequeno raise com uma short stack efetiva é principalmente contra adversários tight-passivos, ou contra adversários loose-agressivos, quando estás a fazer um balanceamento apropriado de raise/call. As antes devem fazer com que optes principalmente pelo shove de abertura com um determinado tamanho de short stack efetiva, bem como uma taxa de ICM elevada quando defrontas todo o tipo de adversários com exceção dos adversários tight e previsíveis.
Gostava de agradecer aos treinadores do Team Moshman, MachtiSonni e Lallez0r, pioneiros do mini-raise com short stacks, cujo pensamento fora-do-comum inspirou este artigo.
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