Atualizado em 03 Ago 26 por

Redacção: Jogando com uma Deepstack

A nossa forma de jogar depende de muitos factores, entre outras coisas, como é claro, depende das cartas dos nossos adversários, da história, e quanto mais longe chegamos, depende da textura da board. Contudo, não é menos necessário, considerar a nossa stack e a stack do vilão...

Muitos dos nossos movimentos têm vindo a ser transformados em jogadas padrão, em particular os all-ins no pré-flop, o tamanho das apostas, o bluff induzido e as value bets. Quando estamos a segurar uma mão muito boa, queremos chegar ao river com um all-in e roubar todas as fichas do vilão. Esta ideia fundamental, e que já a temos interiorizado de certeza, está relacionada com a forma como jogamos com uma stack de 100BB, que é o máximo de buy-in permitido. Mas, neste artigo, queremos percorrer algumas ideias relacionadas com a forma de abordar o jogo quando estamos a jogar deep stack (com mais de 200 BB).

A nossa forma de jogar depende de muitos factores, entre outras coisas, como é claro, depende das cartas dos nossos adversários, da história, e quanto mais longe chegamos, depende da textura da board. Contudo, não é menos necessário, considerar a nossa stack e a stack do vilão. Já sabemos que temos de jogar de maneiras diferentes quando estamos a jogar contra adversários que estejam short stack, do que aqueles que estão full stack.

O mesmo se aplica a jogadores com stacks médias. Não temos odds implícitas muito grandes, o que quer dizer que um “call para set value” ou jogar basicamente um draw, já não é algo que seja muito rentável agora. Em vez disso, podemos muito bem perder todas as nossas fichas com “Top pair Top kicker” porque temos igualmente menos odds implícitas inversas. O movimento “bet/fold turn” já não é possível na maioria das vezes, uma vez que o vilão com a sua stack pequena estaria praticamente all-in depois da nossa aposta no turn.

Vendo as coisas por outro lado, se tivermos a jogar com uma deep stack, que tem mais de 200BB, tal como o vilão, estamos basicamente perante uma situação diferente do que aquela que seria se ambos tivessemos uma stack normal. O que se segue são algumas considerações acerca dos pontos mais importantes a abordar quando se joga deep stack:

1.- Vilão

O carácter do vilão, é naturalmente de grande interesse nesta situação. É óbvio que as nossas odds implícitas aumentam quando jogamos contra mais adversários, o que quer dizer que podemos fazer call a mais mãos em posição, do que aquelas que fariamos se estivessemos a jogar com uma stack normal. Especialmente contra adversários razoáveis (TAGs, LAGs), não devemos mudar muito a nossa forma de jogar. Se jogarmos de forma mais agressiva com mãos marginais, e por isso fizermos 3bet mais vezes, vamos receber mais vezes um 4bet como resposta. Com uma stack deep, temos a possibilidade de jogar 4bet/fold, o que raramente nos era permitido quando jogavamos com uma stack normal de 100BB. O Bluff-4bet ganha uma importância ainda maior aqui nesta situação, mas deve ser jogado de forma muito cuidadosa. Como resultado disso, vamos entrar de forma involuntária na discussão de grandes pots, ou então temos que desistir da mão de qualquer das formas.
Para além disso, podemos assumir que o vilão, sendo um jogador relativamente bom, também não vai ter quaisquer problemas quando se sentar na mesa com 2 stacks.

Naturalmente, vamos estar inclinados para jogar de forma mais ofensiva contra os calling stations, que são geralmente os jogadores mais fracos. Queremos estar envolvidos em pots grandes, que costumam ser normalmente uma tarefa difícil para o vilão. Temos esperança de que vamos conseguir ganhar fazendo uso da nossa melhor skill, ou então de que o vilão possa estar um pouco intimidado por estar a jogar com 2 stacks e assim vamos fazer com que ele por vezes faça fold de algumas boas mãos. Por isso, devemos colocar pressão sobre o vilão.

2.- Jogo pré-flop

Já foi dito no ponto 1 que as nossas odds implícitas aumentam. Um dos factos mais importantes é de que podem fazer 3bet sem qualquer tipo especial de preocupação pelo set value. Isto pode ser posto em prática mesmo com mãos que anteriormente nos poderiam parecer fracas para fazer calls. Por exemplo, suited connectors, suited one-gapper connectors, suited aces, etc... nós normalmente não fariamos call pré-flop depois de um raise sem termos reads dos adversários muito boas. Existe antes de nós algum cold caller? Se tivermos posição podemos fazer um call muito proveitoso. Mas na maioria das vezes, não é vantajoso fazer um call fora de posição. É possível fazer 3bet com posição, contudo, depende do vosso adversário porque estas mãos são mãos em draw, e temos que ganhar muitas vezes sem ter acertado em nada, com um 3bet no pré-flop ou então com uma continuation bet no flop.

Isto resulta simplesmente por causa das odds implícitas, porque raramente vamos conseguir acertar na board algo que nos favoreça. Se o vilão tiver uma stack grande, o proveito esperado vai aumentar, como é claro. Por isso, podemos olhar para o flop de uma forma mais lucrativa e proveitosa.

Apesar de tudo isto, quando temos uma mão forte no pré-flop, temos que ter muita atenção. Têm que ter a noção clara de que estamos a jogar para quantias muito superiores em relação ás stacks normais. Por questão de princípio, costumamos ir all-in no pré-flop quando temos na mão (K-K), quando estamos a jogar com stacks de 100BB. O mesmo se aplica quando se joga contra vilões muito agressivos, e temos na mão (A-K) e (Q-Q). Contudo, devemos considerar se queremos realmente ir all-in com mãos como estas, para disputar situações do género de “moeda ao ar”. Não só estamos a arriscar mais do que uma stack normal, e ainda por cima, o vilão supostamente é conhecedor deste facto e por isso o seu range da mãos é mais tight.
Talvez um jogador agressivo goste de ir all-in no pré-flop com (Q-Q) e (J-J), mas isso pode ser completamente diferente quando está a jogar com uma stack de 200BB. Contra um vilão tight que não faça muitos raises no pré-flop, devem começar a preocuparem-se quando ele faz 5bet ou 4bet com (K-K). Como costuma ser uma jogada padrão de all-in quando se joga com 100BB, aqui nesta situação, podemos naturalmente fazer fold desta mão, porque na maioria das vezes vamos ter que defrontar um par de ases (A-A).

3.- Variance

Antes de mais, quero explicar o significado da palavra variance. Variance quer dizer aqueles casos em que no poker a jogada não termina da forma prevista, isto é, temos um set no flop e conseguimos apanhar o adversário a fazer um bluff-raise all-in. No entanto, depois de fazermos o call com a certeza absoluta que vamos ganhar a mão, ele consegue acertar num runner-runner quase impossível e assim ganhar o pot. É o chamado factor variance no poker.

Dito isto, quando estamos a jogar com deep stacks, e estamos perante situações de “moeda ao ar”, é óbvio que o factor variance vai aumentar quando estão envolvidas stacks tão grandes. No final, não são apenas duas stacks que estão envolvidas, mas sim 4 e 6 stacks, e ás vezes até mais stacks estão constantemente a mudar de dono. Como já foi mencionado atrás, o vilão só está disposto a investir grandes quantias no pot quando tem uma mão muito boa. Devido a este facto, devemos reconsiderar as nossas jogadas padrão. Um overpair no flop, não quer dizer que tenhamos que investir automaticamente toda a nossa stack, como o fariamos se tivessemos a jogar com 100BB. Cada decisão nestas situações de deep stack, custa no mínimo o dobro do que custava anteriormente, e a menos que sejam amigos de um alto factor variance, é melhor fazer fold quando não se sentem seguros com a vossa mão.

4.- Pot control > Protection

O pot control é naturalmente mais importante do que a protection. Nós não queremos ir à falência com estas stacks tão grandes, quando temos mãos marginais como Top pair Top kicker ou um overpair, particularmente. Se for necessário, devemos conceder uma carta de graça ou fazer mesmo fold, se aparecer uma carta assustadora no turn ou river. Aqui também, vamos precisar de ajustar o nosso range de mãos. Mesmo que um vilão agressivo goste normalmente de fazer raise de um draw, é facilmente aceitável que ele apenas faça call com uma stack grande, para assim só continuar a jogar quando conseguir melhorar a mão. Muito raramente é que vão querer ir all-in com um draw e com mais de 200BB.

5.- Menos bluffs / Bluff induzido

Basicamente, quanto maior for o tamanho da stack, menor será a tendência de alguém tentar fazer bluff. Como já foi mencionado anteriormente, o range do vilão fica mais tight, uma vez que ele não está na disposição de abdicar da sua grande stack por causa de um movimento errado. Em pots assim tao grandes é raro de se ver bluffs, especialmente quando se está no turn e o pot já aumentou significativamente (os bluff-raises ainda são algo de normal no flop, como é lógico, uma vez que toda a gente continua a fazer as suas jogadas padrão nessas situações).

Por tudo isto, devemos abordar o uso do bluff induzido de forma cuidadosa. Existem muitas situações em que fazem check-behind no turn, para assim induzirem um bluff e qualquer call no river. Especialmente com stacks assim tão grandes devem ter o dobro de atenção no uso desta jogada. Por um lado, as apostas nesta altura já são de um tamanho bastante grande, e por outro lado, o vilão está menos disposto a fazer uma aposta grande num bluff. Aqui também, o factor variance entra em jogo. Mesmo que pensemos que o vilão é capaz de fazer um all-in bluff no river porque demonstramos estar fracos no turn com o nosso check-behind, temos mesmo assim de pensar, se é mesmo necessário arriscar assim tanto da nossa stack (100BB+).

6.- Explorar as fraquezas

Se abordarmos o facto de jogar com uma deep stack noutra perspectiva, devemos considerar naturalmente se podemos conseguir ter alguma vantagem ao utilizar um jogo agressivo, para assim explorar as fraquezas do vilão quando se joga com stacks tão grandes. Não estamos a falar do all-in no river que mencionamos antes, pois é definitivamente muito caro e só iria aumentar o factor variance do jogo. Acho que o uso do bluff deve antes ser utilizado no pré-flop e flop.

Os pensamentos que temos vindo a explorar neste texto, também são, como é lógico, notados pelo vilão, e por isso ele jogará ainda de forma mais cuidadosa nestes pots grandes. É por isso que podemos fazer bluff-check-raise no flop mais vezes, para que assim o vilão pense que a sua mão marginal não é suficientemente boa para se envolver num pot grande. Aqui nesta situação, vamos ter uma grande oportunidade para que mãos melhores que a nossa façam fold, o que não seria o caso se tivessemos a jogar com uma stack de 100BB.

7.- O Bluff-4bet com fold equity mais elevado

Então o nosso objectivo passa por aproveitar as fraquezas do vilão e força-lo a jogar para pots grandes. Mas também queremos evitar decisões que podem ser caras com uma mão marginal no turn. Para além do já mencionado jogo agressivo no flop, podemos também muito facilmente fazer 4bet com uma mão fraca no pré-flop algumas vezes, porque afinal ainda não estamos pot committed. Especialmente contra LAGs que fazem muitos raises e 3bet no pré-flop, podemos fazer 4bet/fold com mãos marginais. O vilão fará muitas vezes fold de mãos melhores.
Com boas reads do adversário, podem até fazer 4bet com 56s e quando ele fizer push da sua stack de 200BB+, vão ter um fold fácil de fazer, porque ele só fará push com uma mão muito forte. Temos um fold equity muito alto, porque é difícil ao vilão fazer call de uma 4bet. Para além disso, ele tem apenas algumas mãos (do seu range de 3bet) disponíveis para fazer push.

Conclusão

Temos de jogar de forma cuidadosa quando temos uma stack de 200BB+ e vamos defrontar adversários com stacks similares. Precisamos de saber exactamente contra que tipo de adversários estamos a jogar, por isso é muito importante ter boas reads. As nossas odds implícitas vão claramente aumentar no pré-flop, bem como as odds implícitas inversas depois do flop, como é lógico. Podemos nos envolver em muitos pots grandes com as nossas mãos marginais, e como resultado disso, o factor variance vai aumentar consideravelmente, porque não vamos estar a jogar para 2 stacks, mas sim para pelo menos 4 ou mais.

Aquelas mãos que tenham um bom showdown value devem ser jogadas até ao river, se o conseguirmos fazer de forma barata. O pot control é mais importante que a protection na maioria das vezes, por isso é preferível oferecer uma carta de graça e fazer fold com cartas desfavoráveis, do que tentar proteger as nossas cartas a qualquer custo.
Os bluffs são menos frequentes no turn, onde as apostas e raises podem disparar para números bem grandes. Contudo, podemos fazer uso desta deep stack para nossa vantagem, e assim tentar fazer com que o vilão desista da mão utilizando 4bet no pré-flop , bem como bluff-check-raise no flop. Isto só é recomendado quando tiverem boas reads do vosso adversário.

Se derem por vocês em situações dificeis, e não conseguirem fazer uma leitura correcta da vossa mão e da vossa situação, é sempre mais vantajoso fazer fold da mão quando estão a jogar com estas stacks tão grandes.