Poker nas Universidades
Exatamente, um professor de direito de Harvard vem ensinando seus alunos a jogar poker em suas aulas. Em matéria publicada na Revista Época o Prof. Charles Nesson explica como jogar poker ajuda no desenvolvimento do cérebro humano. Leia a matéria completa.
O Professor de Harvard Charles Nesson afirma que “O pôquer
ensina muito para a vida". Fundador de um grupo internacional de estudos
sobre o pôquer, Charles Nesson, professor de Direito de Harvard, afirma que o
jogo – cada vez mais popular no mundo inteiro – é capaz de desenvolver
habilidades como a paciência, o autocontrole e o pensamento estratégico. “O
pôquer não é um jogo de sorte, mas de habilidade”, diz o advogado, que luta
para liberar em seu Estado, Massachusetts, os campeonatos on-line. Para ele, a
internet acabou com a imagem de jogo de apostas altas, já que é possível se
divertir com poucos centavos. O professor de Harvard quer desfazer a imagem
negativa do jogo e até usá-lo para educar crianças.
Confiram a matéria completa:
ÉPOCA – Por que o senhor criou o grupo chamado Global Poker Strategic
Thinking Society (Sociedade Global de Pensamento Estratégico em Pôquer)?
Charles Nesson – A idéia era criar uma rede de grupos universitários
interessados no pôquer não só como jogo, mas como forma de pensar. Estamos
ensinando crianças pobres a brincar com jogos que desenvolvem o pensamento
estratégico. Começamos com “pedra, papel e tesoura”, damas e xadrez, antes do
pôquer.
ÉPOCA – Como o senhor começou a jogar pôquer?
Nesson – Meu pai me ensinou a jogar, e o pôquer fez parte de minha infância.
Jogava com a família e com os amigos. Mas eu não pensava sobre o jogo, não de
maneira analítica. Até que um dia programei jacks-or-better (jogo com cinco
cartas que é uma variação do pôquer) no computador, em 1981. Foi então que
comecei a me interessar pelos padrões de pensamento dos jogadores, pelos blefes
e por como as partidas se desenrolam.
ÉPOCA – De que maneira o pôquer pode ser útil na vida das pessoas?
Nesson – É um bom caminho para incentivar os jovens a entender mais sobre
matemática e sobre como as coisas funcionam. Esse conhecimento pode ser usado
na economia, na educação, no Direito e na psicologia. O pôquer ensina as
pessoas a pensar por si próprias e lidar com os recursos disponíveis. Os
jogadores também aprendem a ser pacientes, a manter sua postura e a respeitar
seus inimigos.
ÉPOCA – Como lidar com a frustração da derrota?
Nesson – Se já é difícil lidar com o sucesso, lidar com o fracasso é ainda mais
difícil e mais importante. Muitas pessoas, quando perdem, decidem que não vão
jogar mais. E essa é a verdadeira derrota. As pessoas devem se manter calmas,
consertar os erros e jogar melhor na próxima partida.
ÉPOCA – Algumas pessoas ilustres, como o presidente americano Richard Nixon
e o empresário Bill Gates, são exímios jogadores. Há relação entre o sucesso
deles e o pôquer?
Nesson – Certamente. E seria muito bom que as pessoas soubessem quantos líderes
nos Estados Unidos – generais, educadores, advogados – eram mestres no pôquer.
O jogo é bom porque você aprende a ver as coisas a partir do ponto de vista dos
outros e ser um jogador – que é o que pede a vida.
ÉPOCA – Jogar pela internet tem o mesmo benefício de jogar da forma
tradicional?
Nesson – Não. Acredito que os jogos on-line possam ser uma boa escola, mas o
jogo cara a cara é diferente. O pôquer é um jogo social. Jogando na presença do
adversário, é possível analisar a personalidade real dele.
ÉPOCA – O que o senhor acha da recente popularização do pôquer entre jovens
e as mulheres?
Nesson – O pôquer é um jogo completamente aberto e qualquer pessoa pode entrar
em um site e aprender. É uma oportunidade tremenda de melhorar as habilidades
das pessoas independentemente de gênero, raça e idade.
ÉPOCA – Há quem afirme que os homens levam vantagem no pôquer por serem mais
agressivos. O senhor concorda com essa análise?
Nesson – É interessante ver que algumas pessoas explicam a supremacia dos
homens no jogo a partir da questão da agressividade. O pôquer é um jogo de
estratégia, que requer um equilíbrio de forças. Dessa forma, a melhor resposta
pode ser um confronto ou um recuo. Certamente, é um esporte aberto às mulheres,
e eu não vejo motivos para os homens estar em vantagem. Talvez haja alguma
diferença em algumas culturas, mas acho que as mulheres ainda não descobriram o
pôquer. Elas ainda não descobriram que podem conhecer homens inteligentes no
pôquer e que os impressionarão se puderem fazer bonito na mesa.
ÉPOCA – Por que o pôquer se tornou tão popular nos Estados Unidos?
Nesson – O pôquer foi assunto principal de alguns filmes de Hollywood e sempre
foi um assunto ligado à tradição do Oeste. Nos faroestes sempre havia algum
jogo acontecendo em algum lugar. É parte do imaginário americano. Acho que a
combinação entre televisão e internet tornou essa experiência possível para
milhões de pessoas.
ÉPOCA – Por que o pôquer deu tão certo na televisão?
Nesson – A TV faz um bom trabalho ao capturar o momento em que os jogadores
tomam uma decisão. É algo interessante, porque você se sente dentro do jogo:
fica sabendo da estratégia dos jogadores, e isso é algo que desperta uma
atração genuína nas pessoas. "É possível jogar pôquer a partir de 1
centavo. É estúpido pensar que se perde muito dinheiro apostando"
ÉPOCA – Por que, em sua opinião, o pôquer é visto como algo fora da lei?
Nesson – Essa visão está atrelada à história do jogo, com a imagem do “saloon”,
e a uma idéia simplista do que é apostar por parte de quem coloca o pôquer como
um jogo de azar, e não de habilidade. O xadrez é um jogo de informações
completas, sobre as quais você tem certeza. Pelo menos na teoria, para cada
posição, há sempre um lance correto que pode levar à vitória. Já a maestria no
pôquer envolve a qualidade da memória, de pensar nos movimentos de toda a
partida. É um ótimo exercício de estratégia que ensina a equilibrar forças
opostas. O pôquer, de certa forma, é muito mais acessível que o xadrez, já que
você pode aprender a jogá-lo em uma hora. Além disso, o xadrez nunca sofreu com
a imagem negativa da aposta e nenhum enxadrista foi criticado por perder muito
dinheiro.
ÉPOCA – Por que querem proibir o pôquer on-line em seu Estado,
Massachusetts?
Nesson – A proibição não foi feita da forma regular, a partir de um projeto de
lei analisado por uma comissão parlamentar. Foi uma regra introduzida por uma
dessas manipulações do regimento. Foi aprovada sem passar por uma votação,
assim como algumas das leis de exceção geradas pelos atentados terroristas de
11 de setembro de 2001.
ÉPOCA – O que o senhor tem feito contra isso?
Nesson – Hoje em Massachusetts estou envolvido em um movimento para impedir os
legisladores do Estado de criminalizar o pôquer on-line. Não consigo
identificar um lobby organizado a favor dessa proibição.
ÉPOCA – No Brasil, os bingos foram proibidos recentemente. É possível
comparar as duas situações?
Nesson – O bingo não é um jogo de habilidade, mas de pura sorte. Do ponto de
vista das políticas públicas, as leis devem incentivar os jogos de habilidade e
regulamentar os jogos de azar como forma de entretenimento.
ÉPOCA – O senhor acha que a aposta é responsável pela imagem negativa?
Nesson – O risco no pôquer é totalmente controlável a partir do tipo de aposta
que você decide fazer. No pôquer on-line, é possível jogar a partir de 1
centavo, 2 centavos. É pôquer de excelente qualidade por um bom tempo. Você
pode ser derrotado e ainda assim não perder dinheiro. A idéia de que alguém
pode perder muito dinheiro jogando pôquer é estúpida. Não conheço ninguém que
tenha perdido muito dinheiro com o pôquer que não tivesse muito dinheiro a
perder. O pôquer é um jogo, e algumas pessoas o têm como diversão. Poucos
resolvem fazer dele um meio de ganhar a vida. A maioria joga de acordo com seu
limite, não vai entrar em uma partida de US$ 2 mil ou US$ 4 mil.
ÉPOCA – Que habilidades é preciso ter para ganhar no pôquer?
Nesson – É preciso desenvolver a habilidade de observar e de lidar com números.
É necessário também melhorar as habilidades emocionais, como o autocontrole, e
desenvolver o espírito de avaliação. São muitas habilidades úteis para muitos
outros campos da vida.
Créditos
A jornalista Letícia Sorg é a responsável pela entrevista
feita com o professor na edição 520 de 05 de maio de 2008.
Entrevistado: Charles Nesson. Tem 69 anos, é casado com Fern Leicher Nesson e
tem duas filhas, Rebecca e Leila. Advogado formado em Harvard, dá aulas na
faculdade de Direito da mesma universidade, onde ensina os alunos a jogar
pôquer. É fundador e presidente da Global Poker Strategic Thinking Society, um
grupo que reúne universidades e tem como objetivo usar o pôquer para educar as
pessoas.