Atualizado em 07 Jul 26 por

O básico do roubo de blinds (Blind Steals)

Introdução

Neste artigo

  • Roubo com uma stack de 12 a 17 BBs
  • Os melhores oponentes são os que têm stacks médias
  • Os tight passivos são os melhores oponentes

Quando alguém faz um raise pré-flop somente com intenção de ganhar as blinds e o faz com uma mão tão fraca que nem pode sequer ser considerado um value raise, este movimento é definido como sendo um roubo. Os roubos vão sendo mais e mais importantes quanto mais sobem as blinds. Existem duas razões para tal acontecer: 1) a nossa stack vai ficando cada vez menor, o que faz com que o rácio blinds/stack aumente, e 2) podemos roubar grandes quantidades de fichas da mesa.

Os nossos raises para roubo devem ser iguais aos raises por valor, especialmente se formos principiantes. Se fazemos um raise de determinado valor quando temos uma mão forte e outro raise diferente para quando queremos fazer um roubo, os nossos oponentes depressa entenderão isso e saberão como agir em cada uma das situações.

No entanto, se o nosso oponente não tem a capacidade de diferenciar esses dois tipos de raise, teremos duas vantagens: 1) Os nossos roubos serão mais respeitados, isto se tivermos mostrado grandes mãos em raises anteriores, e 2) geralmente conseguiremos retirar mais valor das nossas melhores mãos, uma vez que os nossos oponentes podem pensar agora que o nosso raise não é necessariamente feito com um monstro.

Quão grande deve ser a nossa stack?

É sempre uma questão de rácio entre risco/retorno. Um roubo de blinds deverá servir para aumentar as nossas hipóteses de ganhar um torneio, e não para o pôr em risco. Temos de ter uma stack com mais de 10BBs para fazer um roubo. Não existe limite máximo de stack para se fazer o roubo, mas devemos sempre ter cuidado e estar preparados para um eventual re-roubo (re-steal).

A nossa stack deverá cumprir três critérios. Primeiro terá de ser pequena o suficiente para que valha a pena o risco, 1,5 BBs não valem o risco quando temos uma stack de 30 BBs, mas, se pelo contrário tivermos uma stack de 3 BBs, então devemos correr atrás das 1,5 BBs sempre que possível.

Segundo critério: A nossa stack tem de ser grande o suficiente para pôr o nosso oponente sob pressão. Este ponto é mais fácil de explicar com um exemplo:

Fazendo o roubo com uma stack de 12 BBs; O jogador da big blind tem uma stack de 20 BBs. O tamanho do nosso raise de roubo é de 3BBs, o jogador da BB tem de pagar 2 BBs para poder vir a ganhar 4,5 BBs. Aqui ele está num dilema: Ele pode pagar as 2 BBs para ver o flop, mas também sabe que pode ser obrigado a pagar mais 9 BBs para chegar ao showdown. (Palavra Chave: PRESSÃO)

Se ele fizer o call, nós estamos claramente em melhor posição: Estão agora 6,5 BBs no pote e nós temos ainda 9 BBs na nossa stack. Estamos a jogar em posição, com iniciativa e podemos com isso ganhar muitos potes sem sequer acertar no flop, uma vez que o nosso oponente só irá acertar alguma coisa em 30% das vezes.

A sua outra alternativa (para além do fold) é o push, mas já o obriga a um investimento de 12 BBs para poder ganhar as 3 BBs que nós investimos. Ele sabe também que o nosso raise não é obrigatoriamente um roubo, mas pode muito bem ser uma mão como TT (com a qual poderiamos ter feito o call). O re-roubo não é muito apelativo para ele.

Terceiro critério: A nossa stack não deve ser muito grande. Não queremos dar a oportunidade aos nossos oponentes de nos porem sob pressão e também não queremos dar-lhe odds implícitas tão grandes.

Roubar quando a nossa stack estiver entre 12 e 17 BBs será o ideal.

Quão grande deverá ser a stack do nosso oponente?

O tamanho da stack do nosso oponente também importa. Existem quatro tipos de stacks que os oponentes podem ter:

  • Stacks grandes
  • Stacks médias
  • Stacks pequenas
  • Stacks muito pequenas
STACKS GRANDES

As stacks grandes não são alvos fáceis; não conseguimos pôr grande pressão nelas (pôr um jogador com uma stack grande fora do torneio está fora de questão, e raramente lhe daremos uma facada que faça grande diferença na sua stack). Existem no entanto uns quantos looses, e por vezes a jogar mesmo mal, especialmente em limites baixos. Eles jogam muitas mãos e geralmente deixam o torneio muito cedo ou então têm sorte e ficam com stacks grandes. Cuidado quando tentarmos roubar a blind a uma stack grande.

STACKS MÉDIAS

Uma stack média é ligeiramente maior que a nossa. São o alvo perfeito, uma vez que se perderem um all in para nós isto irá deixá-los muito pequenos ou mesmo arrumá-los por completo. Devemos continuar a pressionar. Eles certamente preferirão ficar confortavelmente sentados com a sua stack de 17-25BBs e não a vão por em risco.

STACKS PEQUENAS

As stacks pequenas têm entre 6 a 15 BBs. Devemos ter algum cuidado, uma vez que eles já não têm fichas suficientes para estarem descansados à espera de boas mãos e que os outros jogadores se eliminem uns aos outros. Têm ainda fichas para se tornarem perigosos. Estaremos atrás de muitas mãos com as quais eles podem fazer um push, mas, por outro lado, um push de uma stack pequena dá-nos sempre boas odds.

Vejamos este exemplo: Temos 15 BBs e fazemos um raise para roubo de 3 BBs na posição de CO. O botão faz um push para 8 BBs e as blinds fazem fold. Agora o pote tem 1,5 + 3 + 8 = 12,5 BBs , e nós temos de investir mais 5 BBs. Isto dá-nos umas pot odds de 2,5:1, ou seja, só será necessário vencermos em 32% das vezes para o call ser lucrativo. (Necessitamos de vencer 28% das vezes para ficar sem lucro nem prejuizo, "break even", em fichas, mas em contrapartida perderemos 4% no ICM). Como podemos verificar, um raise de roubo a uma stack pequena força-nos efectivamente a pôr em risco a nossa stack inteira se elas fizerem push, mesmo estando muito atrás comparado com o seu leque de mãos de raise.

STACKS MUITO PEQUENAS

O roubo contra stacks muito pequenas é perigoso; as pot odds não nos deixarão fazer fold se eles não o fizerem. Embora eles possam fazer um push com mãos muito fracas em desespero, nós não estamos à procura de um confronto. Podemos tentar roubar, mas longe do desespero. Perder um all in contra uma stack mesmo sendo muito pequena pode deixar-nos em maus lençóis.

A quem podemos roubar as blinds?

Oponentes tight: Muito bons. Este tipo de oponente normalmente desistirá do nosso roubo.

Oponentes loose: Maus. Farão o call ou mesmo o re-raise com frequência.

Passivos: Quase perfeitos. Fácil fazerem o fold, ou deixam-nos a aposta para nós, mesmo quando têm mão. Podemos decidir quanto estamos dispostos a investir e não teremos decisões difíceis. Podemos mesmo estar num draw até ao river, pois ele não nos fará pagar por isso durante o caminho.

Agressivos: Maus. Agressão é a última coisa que queremos enfrentar quando seguramos uma mão marginal, tanto antes como depois do flop. Jogadores agressivos podem forçar-nos a fazer maus folds (maus porque nós temos boas odds contra a mão que ele segura actualmente, mas não contra o seu leque de mãos). Também é fácil de nos encontrarmos no pós-flop sob pressão: "Irá ele fazer-me um check/raise ou simplesmente não tem nada?" e "Será o meu par médio suficiente / estará ele num draw?" são questões com que nos vamos deparar com frequência.

Oponentes agressivos podem, no turn, ser divididos em quatro categorias:

Tight passivos: Um oponente ideal para o roubo.

Tight agressivos: Também podemos roubar. Este tipo de oponente fará fold com frequência. Se ele fizer um re-raise então temos um fold fácil.

Loose passivos: Também podemos roubar. Um oponente loose passivo fará call a muitos raises pré-flop, mas facilmente desistirá da mão (ou pelo menos não será agressivo) no flop. Podemos escolher o que fazer e ter uma grande vantagem.

Loose agressivos: Os piores oponentes para roubar. Este irá forçar-nos até pontos onde temos de tomar decisões difíceis e não nos deixará ter qualquer controlo sobre a mão.

Quão grandes deverão ser os nossos raises de roubo?

Existem três aspectos a ter em conta quando estamos a determinar o tamanho correcto para um raise: gerar fold equity, maximizar o valor do pote (quando seguramos uma grande mão) e controlo do pote (quando temos somente uma mão decente).

Regra geral existem dois tamanhos standard para o raise de roubo: 2,5 e 3 BBs. Vejamos um exemplo "matemático" dos dois.

Situação: estamos a roubar a partir do CO com 17 BBs na stack e os oponentes depois de nós têm 19 BBs cada um. O botão faz o call e as blids fazem fold.

FIZEMOS RAISE DE 3 BBs

Investimos 3 BBs para ganhar 1,5BBs (blinds). Isto significa que 2 em cada 3 roubos terão de ser bem sucedidos para ficar com EV neutro no pré-flop. Temos também a hipótese de ganhar o pote no pós-flop.

Estão agora 7,5 BBs no pote. A nossa contibet rondará as 4BBs. Ficamos apenas com 10 BBs se perdermos (assumindo que não apostamos mais).

FIZEMOS RAISE DE 2,5 BBs

Desta vez investimos 2,5 BBs para ganhar 1,5 BBs. Vencer 2 a cada 3 vezes dá-nos um +EV (0,5 BBs).

Estão agora 6,5 BBs no pote. A nossa contibet será algo perto de 3,5 BBs. Desta vez só investimos 6 BBs e ainda ficamos com 11 BBs no caso de perdermos.

COMPARAÇÃO

O raise de 2,5 parece o mais indicado à primeira vista, mas isto só é verdade se gerarmos uma fold equity igual à da aposta de 3 BBs. É claro que esse não é o caso. Com o raise de 2,5 BBs damos ao nosso oponente odds de 2,6:1 e com o raise de 3 BBs odds de 2,25:1.

Aqui é também importante compreender e meter na cabeça o efeito do tamanho do pote. Um raise de 2,5 BBs não terá ninguém a respeitá-lo nos limites baixos.

Posição, mãos e imagem

POSIÇÃO

Temos duas vantagens quando roubamos de uma posição final: é menos provável que um jogador depois de nós tenha uma boa mão e ficamos a jogar em posição. Por outro lado: geramos menos fold equity, uma vez que os oponentes acreditarão mais que é um raise de roubo do que um raise por valor.

Um raise de uma posição inicial impõe muito mais respeito. No entanto, corremos o risco de alguém ter uma mão melhor depois de nós e ficaremos a jogar fora de posição no pós-flop.

As vantagens de roubar de posições finais são claramente melhores do que as do roubo em posições iniciais (sem falar dos riscos). Os roubos devem ser feitos no CO, BU e SB.

MÃOS

Broadways, suited connectors e pares de mão (mãos drawing em geral) são todas boas mão para roubo. Estas mãos podem tornar-se monstros no flop. Podemos também jogar draws de forma agressiva. Mas devemos sempre lembrar que as mãos mais fracas só devem ser jogadas em posição final.

IMAGEM

Outro ponto importante a ter em mente é a nossa imagem na mesa. Fazemos muitos raises? Se sim, é melhor aguentar os cavalos um bocadinho e dar um tempo até ao próximo roubo. Podemos ter feito 5 raises seguidos com AA, mas os nossos oponentes não sabem disso e podem pensar que estamos a fazer raise com quaisquer duas cartas. Podemos esperar que eles comecem a fazer o re-roubo com mais frequência. Se, contudo, tivermos mostrado o nosso AA as 5 vezes que fizemos raise, os nossos roubos têm mais hipótese de ser bem sucedidos. Também podemos esperar ter sucesso num roubo se estivemos a fazer fold nos últimos 15 minutos.

A nossa imagem com os "regulares" é também importante. Se já jogamos várias vezes com o mesmo oponente no passado, ele terá com certeza uma imagem de nós diferente da dos outros oponentes que só nos viram a jogar nesta mesa.

Como abordamos os limpers?

Até agora partimos do princípio de que eramos os primeiros a falar. No entanto, iremos encontar oponentes (especialmente nos limites baixos) que fazem limp apesar dos valores altos das blinds. Isto é algo de que nós podemos facilmente tirar vantagem.

Nesta altura temos de começar a diferenciar os roubos puros e os loose raises por valor. Regra geral, é de extrema importância observar com atenção estes limpers e tomar notas sobre os seguintes pontos:

  • Com que frequência fazem limp?
  • Fazem o limp somente para fazerem fold a um raise pré-flop?
  • Fazem o limp e depois fazem o call a um potêncial raise? Poderão fazer o push?
  • Ficam pelo flop muitas vezes com mãos marginais ou mesmo más?

Quando analisarmos e prestarmos atenção a estas pequenas coisas, estaremos prontos para jogar ao melhor nível contra estes limpers. Qualquer oponente que faz muitos limp/call regra geral terá mãos muito fracas, tais como connectors ou cartas suited. Com mãos como KQo ou A9s podemos claramente fazer um loose raise value e ser favorito na mão. Não devemos no entanto fazer um roubo puro com mãos como J8s ou 33.

Nós devemos amar um jogador que faz muitos limp/fold. Se fizermos os nossos roubos com um leque de mão mais loose, é só apreciar a sua BB como dead money no pote.

Se um oponente que regra geral entra no pote com um raise, de repente faz limp, temos de ter muito cuidado e fazer fold de todas as mãos marginais. Isto é normalmente uma armadilha, especialmente quando os outros jogadores têm stacks a rondar as 12 BBs.

Conclusão

O nosso roubo tem de gerar fold equity suficiente para o limite em que estamos a jogar. Contudo não deve ser demasiado alto, pois desta forma não seremos pagos muitas vezes quando temos realmente uma mão com valor.

O tamanho do nosso raise deve também depender da frequência com que fazemos o roubo. Se fazemos o roubo muitas vezes, é melhor optar por raises mais pequenos; assim não têm de sair vencedores tantas vezes para serem lucrativos a longo prazo.

Devemos também saber qual dos dois (nós ou o nosso oponente) estará no limite do call no pós-flop. Se pensamos que é ele então podemos fazer um push pré-flop (mesmo com 15 BBs) ou escolher o tamanho adequado do raise para ficarmos numa situação clara de push-fold no pós-flop.

Mais ainda, é fundamental perguntarmos a nós mesmos se será lucrativo fazer roubos na mesa onde estamos, e se a resposta for sim, com que frequência. Quando estamos a jogar nos micro limites, é preferível não roubar de todo, pois muitos oponentes fazem calls extremamente loose. Isto irá obviamente tornar os nossos roubos menos lucrativos,  isto quer dizer que se tornam desnecessários e é melhor esperar por uma boa mão para ser pago. A questão é se estamos dispostos a ganhar só metade da stack com um monstro, porque a outra metade ficou à algumas mãos atrás num roubo duvidoso.

Por último, temos de analisar de perto os roubos que fazemos; quantos dos nossos raises em posição final foram para roubo e quantos foram por valor. A frequência com que fazemos os roubos irá obviamente influenciar a forma dos nossos oponentes jogarem contra nós (isto só se aplica a bons jogadores que tenham jogado connosco anteriormente). Se eles sabem que 50% dos nossos raises em posição final são roubos com os quais fazemos fold perante um push, eles irão adaptar o seu jogo e fazer push all in em pré-flop com mais frequência. Uma vez que eles farão o re-raise all in com mãos cada vez mais fracas, o nosso roubo pode tornar-se num raise value, e acabaremos por pagar o push dele.