Acho que o Ricardo foi de férias só por ir.

Nuvens negras
"Em Aristófanes, Sócrates é um charlatão. Exceto na opinião de um pequeno grupo de apaniguados, é um troca-tintas. Um impostor. Um pequeno bandido"
Deve ser a isto que os especialistas chamam a admirável intemporalidade dos clássicos. Uma peça de Aristófanes, escrita há uns 25 séculos, parece um decalque da atual vida portuguesa. Como é óbvio, trata-se de uma comédia. Claro que esta feliz coincidência pode dever-se menos à habilidade de Aristófanes para se manter atual e mais à habilidade de Portugal para se manter atrasado. Mas, seja o talento do retratista ou do retratado, não deixa de ser notável.
Na peça Nuvens, um homem chamado Estrepsíades está cheio de dívidas e cercado por credores. Resolve então recorrer a Sócrates. O objetivo é aprender a argumentar com o famoso filósofo e, através de falácias, demonstrar aos credores que uma dívida não é, na verdade, uma dívida. Em Aristófanes, Sócrates é um charlatão. Exceto na opinião de um pequeno grupo de apaniguados, é um troca-tintas. Um impostor. Um pequeno bandido, digamos. Este é, talvez, o ponto em que a peça se afasta mais da nossa realidade - declaração que faço imbuído do mais profundo amor à verdade e também para evitar processos judiciais. Mas, tirando esta discrepância flagrante e grotesca, tudo na história faz lembrar o Portugal do século XXI. Estrepsíades é os portugueses (especialmente aqueles portugueses, ainda não especificados, que se endividaram em 78 mil milhões de euros), os credores são os credores, e Sócrates é Sócrates. O facto de a peça decorrer na Grécia - que é, neste momento, o país mais parecido com Portugal - também ajuda.
Todos os que acreditam nas capacidades proféticas da literatura devem, no entanto, desiludir-se. Não será a peça de Aristófanes a mostrar-nos o futuro. Como toda a gente que aposta em Sócrates para lhe resolver o problema das dívidas, Estrepsíades tem um grande dissabor, e fica ainda pior do que estava. Infelizmente, a peça acaba exatamente nesse ponto. Vemos Estrepsíades vingar-se de Sócrates, é verdade. Mas o que acontece à vida de Estrepsíades depois de castigar Sócrates? Não sabemos. Aristófanes não diz. Talvez porque, como todas as comédias, a peça tenta ocupar-se apenas das coisas que dão vontade de rir. Quando a tragédia a sério começa, cai o pano.
Quinta feira, 16 de Jun de 2011
Fonte: visao.pt

Sabes do Sócrates? Parece que está ótimo
"Foi Portugal que se livrou de José Sócrates ou José Sócrates que se livrou de Portugal?"
O leitor que tome nota: se isto fosse a Dinamarca já o caldo estava entornado. Jovem que chegue a Helsingør para as exéquias do pai e dê com a mãe casada com o tio, desata a planear homicídios e a monologar. Em Portugal, nada. E, no entanto, há tantas razões para inquietação aqui como lá. O facto de se tratar de uma inquietação romântico-legislativa inquieta ainda mais. O que se passa é o seguinte: José Sócrates está demasiado contente. Não me conformo com esta alegria, esta cordialidade, este bom perder. Quero vê-lo espernear, recriminar os adversários, lançar um último insulto a Manuela Moura Guedes. Que contentamento é este? Trata-se de uma boa disposição que ofende. Magoa até quem, como eu, nunca votou nele. Afinal foi Portugal que se livrou de José Sócrates ou José Sócrates que se livrou de Portugal?
Sócrates tem a desfaçatez de se comportar como aquelas namoradas que aceitam muito bem a notícia de que o namoro acabou. Não há lágrimas, não há ranho, não há nada. O fim da relação não é um drama, é um alívio. Ficam mais soltas, mais leves, mais vivas. E têm finalmente tempo para ir para França tirar aquele curso de Filosofia que sempre quiseram frequentar. Amigo leitor, não era José Sócrates que estava a entravar o nosso desenvolvimento, éramos nós que estávamos a entravar o desenvolvimento de José Sócrates.
Assim como vamos sabendo das antigas namoradas através dos amigos, vamos sabendo de José Sócrates através do Expresso. E remoemos as informações com azedume. Que ideia é esta de ir estudar para Paris? E filosofia? Não faz sentido. Uma pessoa chamada Sócrates decidir estudar filosofia é como um tipo chamado Eusébio querer fazer carreira no futebol. É má ideia, proporciona comparações desagradáveis.
E não podemos deixar de sentir que Sócrates não vai para França para nos esquecer. Na verdade, Sócrates já nos esqueceu. E, ao contrário da generalidade dos emigrantes, Sócrates não parte em busca de melhores condições de vida. José Sócrates não vai emigrar para fugir de José Sócrates - até porque, em princípio, José Sócrates vai com José Sócrates. Sócrates vai emigrar para fugir de nós. Alguém que lhe apreenda o passaporte, por favor. Era o que faltava. Obriguem-no a aguentar as medidas da troika até ao fim. Só pode sair do País quando o memorando estiver cumprido.
Quinta feira, 22 de Jun de 2011
Fonte: visao.pt
"Sócrates vai emigrar para fugir de nós. Alguém que lhe apreenda o passaporte, por favor. Era o que faltava. Obriguem-no a aguentar as medidas da troika até ao fim. Só pode sair do País quando o memorando estiver cumprido."
Ah! Como eu concordo com ele...
Original de Imanuell
Mais mas mais mais...![]()
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Esqueci-me de postar ontem. Vou já tratar disso ♠_thumbsup:

Este é o melhor governo das últimas três semanas
"Este Governo vai fracassar porque é um Governo. E, ainda por cima, é um Governo de Portugal. São logo duas circunstâncias funestas"
De um modo geral, as pessoas olham com desconfiança para os políticos e com alguma admiração para os comentadores políticos. Por outro lado, olham com alguma admiração para os futebolistas e com desconfiança para os comentadores de futebol. As pessoas, como sempre, estão erradas. Se alguma coisa distingue os comentadores de política dos de futebol é que os de futebol são melhores. A principal marca dessa superioridade é esta: os comentadores políticos recorrem muitas vezes a metáforas do mundo do futebol para explicar a política, mas os comentadores de futebol teriam justa repugnância em utilizar o jargão político para explicar uma coisa pura e bonita como é o futebol. Além disso, há nos comentadores de futebol uma humildade que os eleva. Jorge Baptista pode criticar Cristiano Ronaldo, mas não ousa acreditar que faria melhor do que ele no campo. Em contraponto, qualquer editor de política que ponha em causa as opções de determinado primeiro-ministro não esconde que, lá no fundo, acredita que seria um chefe de Governo mais competente.
A ingenuidade dos comentadores de política, que contrasta com a frieza experiente dos comentadores de futebol, vem ao de cima em momentos como este. A formação de um novo Governo tem dividido as opiniões: certos comentadores creem que há razões para ter esperança porque as escolhas de Passos Coelho foram boas, outros acham que não há motivo para festa porque as escolhas de Passos Coelho foram más. Uma vez mais, estão todos errados. Este Governo não vai fracassar apesar das boas escolhas ou por causa das más escolhas. Este Governo vai fracassar porque é um Governo. E, ainda por cima, é um Governo de Portugal. São logo duas circunstâncias funestas.
No futebol, compreende-se mal que haja euforia antes do início do campeonato. Na política, não se compreende de todo que haja euforia antes do início de uma legislatura. Ao menos, no fim de um campeonato, haverá sempre um campeão. No fim de uma legislatura só tem havido ressentimento e desilusão. E, sendo o mesmo tipo de ressentimento, custa a perceber de que modo é que continua a gerar euforia. Dou um exemplo: neste momento, há comentadores que depositam grande esperança no novo Governo de coligação entre PSD e CDS. No entanto, da última vez que PSD e CDS se juntaram para governar, o eleitorado ficou tão satisfeito que, na primeira oportunidade que teve, deu uma maioria absoluta a José Sócrates. PSD e CDS foram tão maus que fizeram Sócrates parecer excelente. Depois, Sócrates foi tão mau que fez PSD e CDS parecerem salvadores. Há comentadores políticos que ainda caem nesta esparrela. Rui Santos nunca cairia.
Claro que há dois ou três aspetos positivos no novo Governo. O primeiro é que o partido que venceu as eleições está em minoria no Governo. Em 12 ministros tem 5, contando com Passos Coelho. Pode ser uma inovação interessante. O segundo é que, com a nomeação para primeiro-ministro, Passos Coelho conseguiu finalmente obter um emprego sem ser numa empresa administrada por Ângelo Correia. Aqui está o que pode ser uma inspiração para os desempregados. Com tempo, esforço e sorte, podem arranjar um emprego sem cunhas. Basta que, quando concorrerem a determinado posto de trabalho, o outro candidato ao lugar seja José Sócrates.
Quinta feira, 30 de Jun de 2011
Fonte: visao.pt

Nossa senhora Merkel
"Sabemos que Angela Merkel é do sexo feminino, mas dizendo "senhora Merkel" um jornalista diz mais do que isso. "Menina Merkel" seria demasiado lisonjeiro, e "gaja Merkel", mesmo tendo em conta a atual taxa de juro da dívida portuguesa de curto prazo, demasiado vulgar. "Senhora Merkel" revela que é possível impor políticas de austeridade dificilmente suportáveis e continuar a ser uma senhora"
Talvez Angela Merkel não tivesse os portugueses em tão má conta se soubesse o respeitinho com que é tratada aqui.
Jornalistas, comentadores, políticos e povo em geral designam a chanceler alemã com a cerimoniosa formulação "a senhora Merkel". Creio que é inédito. Bush nunca teve o privilégio de ser o senhor Bush, Berlusconi não é o senhor Berlusconi e nem Mandela ou o Dalai Lama foram, alguma vez, senhores.
Mas Merkel é sempre a senhora Merkel.
Os políticos portugueses merecem ainda menos deferência: Sócrates e Cavaco só foram senhores quando Alberto João Jardim (que também nunca foi senhor) quis depreciá-los e chamou sr. Pinto de Sousa a um e sr. Silva a outro. Cá, só chamamos senhor a um político se queremos deixar bem claro que ele não é, de modo nenhum, um senhor.
A senhora Merkel parece ser a única que é senhora sem ironias. O tratamento especial pode ter uma justificação etimológica.
Senhora tem origem no latim sénior, pelo que talvez os jornalistas queiram constantemente chamar a atenção para a senioridade de Merkel por contraponto com o Governo português, quase todo formado por juniores. Por outro lado, a designação "senhora Merkel" estabelece um termo de comparação temporal muito útil.
É frequente referirmo-nos a um passado relativamente longínquo como "o tempo da outra senhora", um tempo em que, aparentemente, era uma senhora não especificada quem mandava. Chamar "senhora Merkel" a Angela Merkel esclarece que já não estamos no tempo da outra senhora mas sim desta, e adianta que a senhora que manda agora tem um nome. No futuro, quando os vindouros se referirem a épocas antigas, terão de especificar se se referem ao tempo da outra senhora ou ao tempo desta senhora.
Quando a referência à "senhora Merkel" ocorre em noticiários, julgo que está em causa um suplemento informativo.
Sabemos que Angela Merkel é do sexo feminino, mas dizendo "senhora Merkel" um jornalista diz mais do que isso. "Menina Merkel" seria demasiado lisonjeiro, e "gaja Merkel", mesmo tendo em conta a atual taxa de juro da dívida portuguesa de curto prazo, demasiado vulgar. "Senhora Merkel" revela que é possível impor políticas de austeridade dificilmente suportáveis e continuar a ser uma senhora.
O passo seguinte será transformar a estima em gratidão. Isso acontecerá quando a expressão desse reconhecimento fizer com que a "senhora Merkel" passe a ser designada por "nossa senhora Merkel".
É uma admirável particularidade da língua portuguesa: quanto mais nós usamos o possessivo, mais indicamos que é a senhora Merkel quem possui.
Quinta feira, 7 de Jul de 2011
Fonte: visao.pt

São Steve Jobs
"Hoje, tudo o que tem pinta e é perigoso é feito por informáticos. Se um jovem quer ser milionário, fará bem em estudar informática, como Bill Gates (...). E se quer fundar uma semi-religião, fará bem em estudar informática, como Steve Jobs"
A vida de Steve Jobs mudou o mundo, mas a sua morte mudou-o ainda mais. Os zingarelhos que inventou são bonitos, divertidos, e alguns chegam mesmo a ser úteis. Mas nenhum deles causou um impacto tão profundo como o desaparecimento do seu autor. Antes da morte de Steve Jobs, vivíamos no mundo antigo; agora, vivemos no futuro. Sabemos que se trata do futuro porque é absolutamente inesperado: ninguém, nem a ficção científica mais imaginativa, o conseguiu prever. Quando eu nasci quase não havia informáticos. Depois passou a haver, mas ninguém os queria para líderes espirituais. Agora, quando um informático morre, o mundo chora. Nenhuma espécie evoluiu mais depressa que a dos informáticos: em pouco mais de 30 anos, passaram de programadores a profetas.
Sempre achei que o filme Matrix não era especialmente fantasioso no enredo. Matrix era ficção científica porque nenhum daqueles informáticos era totó. Neo, Trinity e Morpheus eram três especialistas em computadores, e no entanto nenhum deles tinha borbulhas ou usava óculos. Era um primeiro sinal de que o mundo estava a mudar. Matrix não era um aviso de que o mundo do futuro ia ser dominado por máquinas, era um aviso de que o mundo do futuro ia ser dominado por informáticos. Era uma previsão ainda mais inquietante, porque nenhum de nós, no liceu, escarneceu de uma máquina. Mas que atire a primeira pedra quem nunca fez pouco do colega que gostava de falar sobre cobol.
Confirmou-se: hoje, tudo o que tem pinta e é perigoso é feito por informáticos. Se um jovem quer ser milionário, fará bem em estudar informática, como Bill Gates. Se quer que a sua vida dê um filme, fará bem em estudar informática, como Mark Zuckerberg. Se quer ser pirata, fará bem em estudar informática, como os hackers. E se quer fundar uma semi-religião, fará bem em estudar informática, como Steve Jobs.
Quando, há dias, se soube que o Papa tinha usado o seu iPad para publicar um tweet, percebemos duas coisas. Primeiro, que é possível publicar tweets no Tweeter com um iPad, enquanto se ressalva: "Sim, mas isso do preservativo são modernices." Segundo, que a religião secular criada por Steve Jobs era olhada com benevolência pela outra, o que também era surpreendente por duas razões. Uma: porque neste tipo de negócio a concorrência não costuma ser apreciada. Duas: porque Deus costuma ficar mesmo muito irritado quando vê uma maçã trincada. A Apple tem de ser mesmo muito encantadora, para seduzir o Vaticano.
Quinta feira, 20 de Out de 2011
Fonte: visao.pt
Original de nuno21nt
Quando, há dias, se soube que o Papa tinha usado o seu iPad para publicar um tweet, percebemos duas coisas. Primeiro, que é possível publicar tweets no Tweeter com um iPad, enquanto se ressalva: "Sim, mas isso do preservativo são modernices."
Que "deus"

Original de filipexx
"Ricardo Araújo Pereira - Opina sobre a Professora de MirandelaNa qualidade de antigo aluno, a notícia da professora de Mirandela que posou nua na Playboy deixa-me indignado: no meu tempo não havia professoras destas. Na qualidade de cidadão que já foi capa da Playboy, o facto de a professora ter sido suspensa faz com que esteja solidário: nós, as coelhinhas, devemos unir-nos. Devo dizer, aliás, sem querer ser corporativista, que, se eu mandasse, todas as professoras posariam nuas na Playboy. O Ministério da Educação continua entretido com programas e avaliações e ignora aquilo de que o nosso sistema educativo precisa: professoras nuas. Primeiro, por uma questão de disciplina. Nenhum aluno arrisca a expulsão da sala onde lecciona a Miss Fevereiro.
Segundo, por razões de concentração no estudo. Qualquer jovem aluno já deu por si a imaginar a professora sem roupa. Eu não fujo à regra, e aproveito a oportunidade para pedir desculpa à Irmã Genoveva. Mas os alunos de professoras que posam na Playboy não perdem tempo com distracções dessas: não precisam. Se querem ver a professora despida, abrem a revista na página 49. Na sala de aula, concentram-se na compreensão da matéria.
Terceiro, para conseguir o desejado envolvimento da comunidade no processo educativo. Os encarregados de educação mais desinteressados passam a frequentar todas as reuniões de fim de período: os pais desejam ver a professora; as mães desejam verificar se os pais não se entusiasmam demasiado com o visionamento da professora. Padrinhos que não vêem o afilhado desde a pia baptismal virão de longe para se inteirarem do aproveitamento escolar do miúdo.
Infelizmente, a vereadora da Educação da Câmara de Mirandela pensa de outro modo. A exibição pública voluntária do corpo nu está interdita às docentes. Não se sabe a que outras profissões se alarga esta inibição. Canalizadoras podem posar sem roupa sem desprestigiar o nobre ofício de vedar uma torneira? Empregadas de escritório podem deixar-se fotografar nuas sem melindrar os carimbos? Ninguém sabe ao certo, mas parece urgente definir com rigor que outras profissionais estão deontologicamente impedidas de fazerem com o seu corpo o que quiserem.
Mais do que a suspensão, deve colocar-se em causa a recolocação da professora. O receio de alarme social levou a Câmara a retirar a docente do contacto com os alunos e a enviá-la para o arquivo municipal. Ora, o contacto com bibliotecários de óculos grossos que não vêem uma pessoa do sexo feminino nua desde 1977 não será mais perigoso e socialmente alarmante do que o convívio com jovens? Fica a pergunta, para reflexão das autoridades fiscalizadoras da nudez."
Esta já tem uns valentes meses, mas também estava engraçada. Para os menos lembrados, a crónica refere-se a Bruna Real!
Não sei ao certo onde foi "oficialmente" publicada :f_rolleyes:! O cartoon foi publicado no Expresso!
olha la a professora... http://www.tomatespodres.com/2010/05/fotos-da-professora-de-mirandela-bruna.html

Um abraço para Cristiano Ronaldo
"Considero que Cristiano Ronaldo é modesto e casto. No lugar dele, tendo feito os sacrifícios que ele fez e obtido o que ele obteve, eu teria mandado fazer um cartaz, todo em néon, com os dizeres "Eu sou o grande Cristiano Ronaldo" e uma seta fluorescente a apontar para mim, pendurava-o ao pescoço e não saía de casa sem ele"
Cristiano Ronaldo acaba de ganhar mais um prémio importante e, no entanto (ou por causa disso), muitos estrangeiros odeiam-no, e alguns portugueses toleram-no com aquele desprezo manso que se dedica aos rústicos. Dizem "Cristiano Ronaldo" articulando todas as sílabas com escárnio, sublinhando toda a cristianoronaldice do nome. Essa gente maldosa sabe o que faz: o nome foi a única vantagem com que Cristiano Ronaldo nasceu. É um nome que indica ao seu proprietário a carreira que deve seguir. Um nome psicotécnico: um arquitecto Cristiano Ronaldo sabe que nunca vencerá o Pritzker, e um engenheiro Cristiano Ronaldo nunca será quadro de topo da Mota-Engil - a menos que tenha sido ministro das Obras Públicas, mas infelizmente o cargo de ministro também está vedado a Cristianos Ronaldos, como é óbvio. Não, assim que um miúdo recebe o nome de Cristiano Ronaldo, pode começar a engraxar as chuteiras: já sabe que vai ser jogador de futebol.
Foi a única vantagem com que Cristiano Ronaldo nasceu. Tudo o resto foi conseguido por ele. É por isso que, ao contrário do que parece ser a opinião geral, considero que Cristiano Ronaldo é modesto e casto. Modesto e casto, digo bem. E justifico: Ronaldo nasceu, há 26 anos, num lugarejo esquecido da Madeira. À custa exclusivamente do seu esforço, conseguiu ser considerado o melhor do mundo no seu ofício. É isso que faz dele modesto. No lugar dele, tendo feito os sacrifícios que ele fez e obtido o que ele obteve, eu teria mandado fazer um cartaz, todo em néon, com os dizeres "Eu sou o grande Cristiano Ronaldo" e uma seta fluorescente a apontar para mim, pendurava-o ao pescoço e não saía de casa sem ele. Que ele, de vez em quando, dê uma entrevista em que arrisca um tímido elogio a si mesmo, para mim, é sinal de humildade.
Além disso, recordo que Ronaldo tem 26 anos. Parece que se dedicou em exclusivo a uma russa quando tem 400 russas, 650 suecas, 890 finlandesas - e por aí adiante, por esse atlas afora - a baterem-lhe à porta. Qualquer rapaz normal de 26 anos que já tivesse ganho o suficiente para nunca mais precisar de trabalhar na vida faria uma curta interrupção sabática de 40 anos no futebol para se dedicar em exclusivo às estrangeiras e ao álcool, como muitos antes dele tiveram o discernimento de fazer. Entre a pândega e o trabalho, Cristiano Ronaldo optou por meter na cabeça que vai bater todos os recordes anteriormente estabelecidos pelos melhores jogadores da história, e parece bem lançado para o fazer. Escolheu mal, evidentemente, até porque aos 26 anos não temos ainda a maturidade para distinguir aquilo que é mais importante na vida, e os cantos de sereia da ética do trabalho conseguem fazer com que muito jovem imaturo abandone uma vida de libertinagem para cair tragicamente nos braços da competência profissional. Comparado com o que podia ser, Cristiano Ronaldo é um monge. Há padres mais devassos do que ele. Felizmente, eu sou capaz de perdoar as falhas de carácter mais graves, e não o admiro menos por causa disso.
Quinta feira, 17 de Nov de 2011
Fonte: visao.pt
