Tilt: Introdução

Jogadores que entram facilmente em tilt não serão bem sucedidos no longo prazo
Nenhum outro aspecto psicológico tem maior impacto no vosso sucesso no poker como a vossa suscetibilidade a entrar em tilt.
As diversas formas de "entrar em tilt" serão o tema deste artigo. Não será necessária uma introdução muito extensiva ao tema, já que qualquer pessoa que tenha jogado poker terá facilidade em compreender esta problemática.
O tilt é real! É um assunto de que não podemos escapar se queremos levar o poker de uma forma séria. A partir de um momento em que tenham chegado a um determinado nível técnico, a vossa carreira dependerá da vossa capacidade de gerir este aspecto do jogo. Se têm tendência para entrar em tilt e não conseguem manter o controlo da vossa mente, acabarão por ter um lucro muito escasso, ou até prejuízo.
Será isto exagerado? Não. A capacidade de gestão de fases de tilt torna-se progressivamente mais importante à medida que as capacidades técnicas dos jogadores se começam a igualar - o que será o caso a partir dos limites médios.
|
TILT Um jogador em tilt está num estado emocional em que tem graves dificuldades em fazer as decisões mais racionais e permite que o seu estado de ânimo influencie negativamente o seu jogo. |
Quando deixarem de contar com uma superioridade técnica clara face aos vossos adversários, a variância e os swings tornam-se numa parte mais substancial do jogo. A vossa força mental, isto é, resistência ao tilt e capacidade de se manterem tranquilos sob pressão, ganhará uma importância bem maior. Em suma: existe um reforço significativo da importância no jogo da vossa disposição mental ou atitude.
É óbvio que um jogador deve trabalhar nos aspectos mentais e psicológicos do seu jogo. Este desenvolvimento depende da vossa própria personalidade e características. A forma como vocês ou os vossos adversários lidam com as suas próprias fraquezas e personalidades compõe um dos aspectos mais fascinantes do poker.
Tilt - O outro lado do poker
Mesmo desejando que fosse de outra forma: a nossa impaciência, temperamento, alterações de disposição, desespero, nervosismo, falta de concentração, medo, etc. tornam-se bem mais evidentes quando nos encontramos sob stress.
Este é o outro lado do poker, aquele que não vão encontrar nas revistas. Existem bastantes jogadores cuja vulnerabilidade ao tilt não afecta apenas o seu jogo, mas interfere também nas sua vida privada e social, chegando até a colocá-los em perigo. Esta situação retira-lhes as formas de escaparem a este stress de se sentarem numa mesa de jogo, acabando por entrar num ciclo vicioso.
![]() |
| O Tilt pode afectar a vossa vida privada |
Como é que esta temática tem sido tratada no "público do poker" até ao momento? A resposta: raramente é discutida! Algumas pessoas têm ideias erróneas enraizadas como se os problemas psicológicos fossem coisas exclusivas de mulheres ou crianças. Vemos colossos do poker como o Doyle Brunson na tv a contar piadas sobre a sua carreira de poker, com praticamente meio século, sobre longas sessões de poker (algumas ilegais) que envolvem snipers nos telhados, onde os jogadores arriscavam mesmo a vida para jogar. Não será o tilt um pequeno problema, comparado com isto? Alguém que já tenha visto Brunson nas em sessões de poker televionadas pode pensar que, tendo em conta a sua personalidade e capacidade mental, é preciso bem mais do que algumas bad beats para o abalar.
O mesmo aplica-se às estrelas de segunda geração com décadas de experiência como Ted Forrest ou Barry Greenstein. Raramente ouvem algo sobre estes jogadores terem estado em tilt na sua carreira. Mas a verdade é que, estas estrelas também têm de lidar com este problema. Existem alguns jogadores que lidam com este facto suficientemente bem; por outro lado, existem jogadores, extremamente bem sucedidos e com uma longa carreira de poker que vivem no limbo, correndo sempre o perigo que um novo tilt cause danos muito graves às suas bankrolls.
Saber jogar às cartas não basta
O poker online trouxe mais atenção sobre este problema. O tilt já não é uma "doença funcional" de alguns membros do mundo restrito do poker, algo desconhecido e aborrecido para as pessoas fora desse mundo. Com milhões de novos jogadores de poker em todo o mundo, é uma questão que agora afecta milhões de pessoas.
![]() |
|
Sem auto-disciplina, não há sucesso
|
À medida que a dimensão psicológica do jogo ganhe dimensão, aperceber-se-ão da sua real importância para o jogo. Vão sentir necessidade de exercitá-la e de analisarem a vossa capacidade psicológica de gestão do jogo. Isto não é novidade, o mesmo ocorre em outros desportos como o golfe e o ténis.
Saber jogar não é suficiente! Os aspectos psicológicos e a gestão pessoal torna-se progressivamente mais relevante para o vosso sucesso. Nos limites altos, podemos afirmar que o aspecto psicológico é bem mais importante que as habilidades técnicas.
Para além da rentabilidade e da melhoria do vosso jogo, é necessário tomar outro aspecto em consideração: com o aumento de público e audiência que o poker tem vindo a obter até aos dias de hoje, será importante também saber gerir as críticas ou preconceito que pode advir do vosso próprio círculo privado (amigos, família), mas também dos agentes legisladores que podem tentar restringir ou sobre-regulamentar o jogo. A pessoas costumam apoiar medidas hiper-restritivas quando ouvem opiniões de especialistas que sustem que, sobre um determinado ponto de vista terapêutico ou social, milhões de pessoas, amigos, maridos e famílias estão em perigo de entrar em "tilt".
Eu decido o que me coloca em tilt
A partir do momento em que se clarifique importância do tilt na vossa carreira do poker, surge uma segunda questão: Existe algo que se possa fazer de forma a evitar entrar em tilt? Ou será a susceptibilidade ao tilt uma questão de personalidade, o que quer dizer que simplesmente se é ou não propenso a este estado de espírito? E, havendo algo que se possa fazer, o que é?
![]() |
| Todos podem mudar |
Eu suponho que existem pessoas capazes de se mudar a si próprias para melhor, especialmente na sua perspectiva; muitas vezes não temos a influência sobre os factores externos. Somos incapazes de influenciar as cartas que nos saem ou os jogadores que enfrentamos... Mas podemos decidir a forma como reagir às situações com que nos deparamos. Adaptando Klaus Kinski (que disse um dia "Eu decido quem me ofende").
"Eu decido o que me põe em tilt."
Aqueles que até agora na sua vida, se sentem mais preocupados com os factores externos podem sentir-se ansiosos sobre estes primeiros passos para enfrentarem a sua própria psique (o que é bastante normal; a puberdade e os primeiros anos como adulto são marcados por uma exploração intensa, já as fases de introspecção normalmente vêm mais tarde na vida). Por medo ou receio do que possa acontecer, acabam por escolher não dar estes passos e em vez disso dedicam-se somente ao apuramento técnico do seu jogo.
Mas lembrem-se que é por uma "boa causa", nomeadamente o vosso bem estar psicológico e da vossa bankroll.
"É a nossa luz, não a nossa escuridão, que mais nos assusta.“
(Nelson Mandela, 1994, na sua primeira declaração pública)
Com isso em mente: Experimentem e vejam se alguma destas sugestões pode ajudar-vos nas vossas fases de tilt.
Delineei este guia para cobrir os diversos aspectos do tilt em vários artigos, concluindo com possíveis soluções e dicas para lidarem com o tilt. Estas, geralmente, funcionarão para todos os aspectos do jogo e não só para as especificidades citadas no artigo.
O tilt é um tema complexo: tópicos e os problemas padrão que são comummente discutidos em fóruns estarão resumidos para facilitar a vida aos iniciados.
Se tiverem algum comentário ou feedback neste artigo, façam posts no fórum. Partilhem as vossas experiências uns com os outros.
É tempo de dar o primeiro passo. Divirtam-se!
Sobre o autor: Robert Langer é psicólogo e treinador residente em Saarbrücken. Ele também ensina Psicologia numa importante escola alemã de medicina alternativa e organiza seminários e conferências sobre NLP, psicologia de resolução de conflitos e tipologia psicológica.


