O dilema da Gigabet
1. Introdução
- Gigbabet e a classificação de fichas
- A regra dos 35%
Como já explicado no artigo sobre ICM, existem situações nas quais o Independent Chip Model não serve. Algumas vezes faz sentido dar um push -$EV UTG já que você pagaria a big blind na próxima mão, diminuindo assim a sua fold equity.
Outro conceito aloca diferentes valores individuais para as fichas no stack e às vezes requer uma jogada -$EV já que as fichas que você aposta valem menos do que as que você ganha. Isso pode soar abstrato, mas vamos tentar explicar o conceito da forma mais elaborada e plausível possível neste artigo.
Exemplo introdutório:
PartyPoker Step 5 SnG
Blinds t50/t100
Restando 8 jogadores
Seat 1: MP2 ( t1005 )
Seat 3: MP3 ( t840 )
Seat 4: Cutoff ( t1490 )
Seat 5: Button ( t410 )
Seat 6: SB ( t1495 )
Seat 7: BB ( t2135 )
Seat 9: UTG+2 ( t2080 )
Seat 10: MP1 ( t545 )
Pre-flop: Hero is BB with Q
, 3 
2 folds, MP2 calls t100, 1 fold, Cutoff calls t100, Button raises to t410 and is all-in, 1 fold,
Hero ?
O que você faria?
Com certeza a maioria das pessoas diria "Fold fácil". É claro que o button tem um range de push maior aqui, já que ele tem um stack de apenas 4 BB. Mas porque você deveria investir 1/5 do seu stack em uma mão onde você só tem no máximo 2 live cards, e mais pessoas vão agir depois de você? Se você supor que o button deu push aqui com qualquer par, quaisquer 2 broadway e A7s+, então o Hero tem uma equidade de 31%. Logo, ele deve foldar.
Mas o Hero nessa mão tinha uma opinião diferente: Hero re-raises para t2035 e está all-in.
E isso não é um fish ou algum regular, mas sim "gigabet", um jogador de SnG muito forte. Porque Gigabet deu esse push será explicado daqui a pouco.
2. Classificação das fichas
Primeiro vamos dar uma olhada nos tamanhos dos stacks dos jogadores antes da mão:

A experiência mostra que dificilmente faz diferença quem tem um pouco mais ou um pouco menos fichas se dois jogadores tiverem um stack parecido.
O MP1 teoricamente teria que considerar isso como uma situação de all-in se ele receber um push do button (desconsiderando todos os outros jogadores), pois ele ficaria com apenas 135 fichas se perdesse, o que é um pouco mais do que 1 BB e não o ajudará em mais nada.
O BB com só 55 fichas a mais que o UTG+1 não tem nenhuma vantagem também. Com 2.135 fichas, ele é para o UTG+1 a mesma ameaça que ele seria com apenas 1.800 fichas: Em ambos os casos um confronto perdido com o UTG+1 significaria eliminação quase certa, já que a situação dele com 280 fichas é quase tão ruim quanto com 0.
Dois ou mais jogadores estão em um grupo, contando que o maior stack não tenha >35% a mais de fichas do que o menor.
A razão disso será explicada depois. Como mencionado antes, dificilmente importa quem tem o maior stack e quem tem o menor stack.
3. Classificação dos stacks baseado no valor das fichas
Com base no que foi mencionado anteriormente, de que os jogadores estão no mesmo grupo se os stacks deles diferem em no máximo 35%, podemos dividir os 8 jogadores do exemplo anterior em 4 grupos. A seguinte tabela mostra os stacks verdadeiros e a menor quantia abaixo da qual um jogador deve sair do grupo.

Explicação:
O MP2 tem com 1.005 fichas aproximadamente 26% a mais de fichas do que o MP3 que tem 840 fichas. Logo, ambos os jogadores estão em um grupo. 623 é o menor limite, do qual o MP2 não deve ficar abaixo para evitar cair do grupo, já que com 623 fichas ele teria aproximadamente 35% menos do que o MP3 com 840 fichas.
Por outro lado, o MP3 ainda continua nesse grupo com 745 fichas, já que nesse caso o MP2 teria 35% de fichas a mais que ele. Isso pode parecer um pouco confuso agora, mas você será capaz de entender se você reler algumas vezes.
E esse é o caso com os 4 grupos. Com os dois short stacks é um pouco questionável, já que eles tem apenas 4 e 5 BB respectivamente, e o conceito de push ou fold está acima do de fichas com diferentes valores. Eles foram incluídos nos cálculos para os cálculos ficarem completos.
Vamos voltar para a mão anterior:
O BB (Gigabet) percebeu que as 410 fichas com as quais o button deu push não o prejudicam de maneira nenhuma. No caso dele perder as 410 fichas ele ainda estaria no grupo azul com 1.725 fichas, já que o limite para ele sair do grupo é de 1.540 fichas. Só com um stack menor que ele estaria mais de 35% distante do UTG+1 e cairia abaixo do grupo azul.
O push então é relativamente fácil de explicar: Ele quer pressionar os limpers para fora da mão. Se ele pagar ele arriscaria que pelo menos um dos limpers pagasse também, ou até mesmo desse push, o que faria a mão ficar bem cara para Gigabet. Essa é a razão pela qual ele deu push. Se é uma jogada boa ou ruim, especialmente considerando o open limp do MP2, não é o assunto nesse artigo.
O fato é que Gigabet supôs que ele consegue jogar a sua mão heads-up contra o button, apesar do risco de outros jogadores pagarem o seu push.
Mas as fichas extras servem de alguma coisa? Se os limpers descartassem a mão e ele ganhar do short stack, ele terá um stack de 2.795 fichas. Dessa forma ele teria aproximadamente 34% a mais do que o membro do seu grupo, o UTG+1 e ele ainda estaria em seu grupo, mesmo que por pouco. Nós não acabamos de aprender que dificilmente faz diferença quantas fichas você tem desde que você esteja no mesmo grupo?
A resposta é a seguinte:
Independente de o jogador médio saber ou não - até agora dificilmente importava se ele tivesse um pouco mais ou menos fichas do que outro jogador com um stack de tamanho similar. Por outro lado, Gigabet encontrou uma vantagem para essas fichas menos valiosas, que serão explicadas no próximo capítulo.
4. A regra dos 35%
Se você tiver que investir 35% do seu stack para pagar um raise, você não decide entre pagar ou foldar,mas sim entre dar push ou foldar já que um all-in lhe daria pot odds de pelo menos 2:1 no flop, e até melhores se estiver dead money no pote. Qualquer mão que é forte o suficiente para um call também está comprometida com o pote em qualquer flop. Se você der push pré-flop, você pode até ter alguma fold equity.
Gigabet supôs que a maioria dos jogadores de limites altos na mesa dele sabe sobre essa regra. Mesmo se você não tiver lido sobre isso, a maioria dos regulares de SnG sabem, intuitivamente, que eles não podem pagar uma aposta de 350 fichas contra um stack grande, tendo eles próprios só 1.000 fichas para então foldar no flop. Já que você se comprometeria com um call de qualquer jeito, você dá o push e retorna a decisão ao raiser. Se você continuar esse pensamento, você percebe que 350 fichas são o suficiente para confrontar um jogador com 1.000 fichas com uma situação de all-in ou fold.
Ou em geral:
Você só tem que investir 35% do stack do seu oponente para colocá-lo all-in.
Essa é a razão pela qual com uma diferença de fichas até 35%, ainda se está no mesmo grupo. Depois disso, o maior dos 2 stacks já tem fichas suficientes para colocar o outro em all-in sem ter que ir all-in ele mesmo (apesar de apenas algumas pessoas usarem isso).
Exemplo:
Blinds t50/t100
Seat 1: MP1 ( t1005 )
Seat 2: MP2 ( t1100)
Seat 3: MP3 ( t1040 )
Seat 4: Cutoff ( t490 )
Seat 5: Button ( t410 )
Seat 6: SB (Hero) ( t2015 )
Seat 7: BB (Villain) ( t1495 )
Seat 8: UTG ( t1050)
Seat 9: UTG+1 ( t850 )
Seat 10: UTG+2 ( t545 )
Preflop: Hero is SB
8 folds, Hero raises to t525
Situação a:
Hero raises to t525, Villain folds
-> Hero wins t100
Situação b:
Hero raises to t525, Villain re-raises to t1495 and is all-in, Hero folds.
-> Hero loses t525
O Hero ganha uma big blind após o fold do vilão e é capaz de estender a sua liderança passo-a-passo (similar ao modo de push-ou-fold em heads-up). O Hero é capaz de largar a sua mão se o vilão tiver uma mão que ele considera forte o suficiente para ir all-in de acordo com a regra dos 35%. Agora o Vilão tem o maior stack do grupo, mas já que ele é um regular normal, ele não sabe o conceito descrito e não sabe tirar vantagem das fichas extras.
Existe também o fato de que o Hero é o chip leader e o Vilão senta-se à mesa com o segundo maior stack. Para brigar com o chip leader com tantos stacks pequenos na mesa, o Vilão precisaria de uma mão muito forte. É por isso que o Hero irá ganhar o pote pré-flop na maioria das vezes.
Então, se o Gigabet conseguir ganhar contra o short stack, ele terá 34% de fichas a mais do que o UTG+2, o que o colocará sob muita pressão. Ele poderia confrontá-lo com uma situação de all-in sem se comprometer. Para ele essa vantagem é quase tão boa quanto dobrar o stack. Estar sentado diretamente à direita do adversário é outro bônus, apesar de que seria melhor se ele tivesse posição sobre o adversário.
No entanto, existe um ponto importante de crítica sobre esse conceito que não deve ser escondido:
Com um re-raise do vilão o Hero teria pot odds de 2:1, o que pode favorecer um call. Mas como o Hero teria que investir mais fichas, e essas outras fichas foram provadas ser mais valiosas do que as que ele já apostou, o conceito de pot odds é negligenciado nesse caso e o Hero descarta sua mão apesar de boas odds.
5. Conclusão
Como mencionado no começo do artigo, o ICM às vezes atinge o seu limite. Mesmo assim, você irá ter um bom ROI, mesmo em SnG´s e MTTs com um buyin maior, com o jogo de ICM no caso de você realmente entendê-lo e usá-lo. O conceito descrito aqui é para ajudar os jogadores que já chegaram aos limites mais altos ($55+) e que querem aperfeiçoar seu jogo ainda mais. É um complemento aos conceitos antigos, mas nem de longe tão importante quanto a compreensão do modo de push-ou-fold ou odds e outs.
O conceito foi descrito da maneira mais simples possível, já que é feito para ser apenas um ponto de partida para você. Quem pensar mais sobre isso irá perceber que os jogadores podem estar em vários grupos, que mais do que 2 jogadores podem estar em um grupo, e que esse conceito é mais importante para grandes stacks do que para short stacks e etc. Além disso, não é possível retrarar o valor das fichas individuais concretamente como foi feito no segundo gráfico. Ao invés disso, deve ter uma mudança de cor do claro para o escuro. Como você pode ver o conceito ainda pode ser bastante melhorado.
Pense nisso você mesmo e tente aperfeiçoar o sistema para si mesmo.
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