Atualizado em 07 Jul 26 por

Tilt: O Fish e o Shark

Vocês não têm qualquer vantagem relativa quando estão em tilt

"A competição é ganha no campo de seis polegadas entre as orelhas" (Bobby Jones, famoso golfista)

Poder-se-á pensar que os melhores jogadores deveriam adorar jogar contra outros de pouca valia técnica, os chamados fish. Afinal, não são eles que fornecem o dead money ao pot? Não serão eles que cometendo erros e mais erros farão os melhores jogadores lucrar? Não são eles que apenas tendo um draw fraco, dão call a qualquer coisa, na esperança de atingir algo? Não é verdade que estes jogadores nem fazem ideia da análise matemática das jogadas e simplesmente fiam-se na sorte, jogando demasiadas mãos, escolhendo tamanhos de apostas simplesmente estúpidos, ignorando a sua posição.... sendo calling station ou weak-tight?

Tudo isto é verdade - até agora, tudo bem. No entanto, os fish, por vezes, apresentam-se como difíceis obstáculos mesmo para os melhores jogadores pois as suas más jogadas inevitavelmente leva-os a lidarem com uma ocasional e horrenda bad beat. Já para não falar nas suas jogadas irracionais que nos colocam em tilt.

Os maus jogadores também podem ganhar

 

 

Se os fish não ganhassem ocasionalmente mesmo apesar das suas más jogadas, então os bons jogadores teriam winrates astronómicas. O único problema é que o oceano, por vezes, está empestado destes jogadores. O pobre fish devia sentir-se confortável na pele de um jogador perdedor. Eles deviam estar autorizados a perder todo o seu dinheiro sem qualquer tipo de queixas para os melhores jogadores.

Qualquer um, com alguma experiência no poker, está familiarizado com este problema. Os maus jogadores irritam-nos mas ao mesmo tempo temos de ter a consciência que boa parte dos nossos lucros derivam de jogarmos contra eles. No entanto, por vezes a fúria domina-nos e leva-nos ao tilt. Porque é que isto acontece?

É devido à natureza emocional da fúria que esta nos afecta directamente, distraindo-nos e atrapalhando o nosso jogo enquanto que torna a percepção de que os maus jogadores nos pagam as contas e nos fazem lucrar demasiado longínqua e abstracta.

Geralmente, isto leva a uma alteração na nossa percepção, do nosso jogo para o dos adversários. Com efeito, esta alteração pode aliviar-nos um pouco da responsabilidade mas não beneficia o nosso jogo pois esta ideia não nos impele a melhorar o nosso jogo na medida que nos faz pensar que grande parte das coisas que ocorrem na mesa devem-se a factores alheios. As nossas acções deixam de ser totalmente independentes e passam a ser determinadas pelos outros.

 

A explicação dos nossos resultados reside na nossa habilidade ou na habilidade dos nossos adversários?

Qualquer pessoa que coloque a responsabilidade dos seus resultados nos seus adversários, pode estar mais aliviado em termos de responsabilidade mas também não tem qualquer poder no seu próprio jogo. Por essa perspectiva, não podemos agir mas apenas reagir em relação ao que os outros fazem. Acabamos por jogar o jogo dos adversários em vez de jogarmos o nosso. Gostaríamos de jogar o nosso jogo, mas os adversários não nos permitem.

Jogadores que sejam verdadeiramente determinados aceitam os factos do jogo e a sua quota parte de responsabilidade sobre o que ocorre na mesa. Eles sabem que só podem trabalhar o seu jogo e não o dos outros. Estes jogadores vêem uma má sessão ou um downswing como um sinal de necessidade de melhoria do seu próprio jogo. Desta feita, não terão muitas desculpas para se redimirem dos maus resultados mas têm o poder de melhorar a sua situação.

 

A tua vantagem não é assim tão grande

O Poker é um jogo de vantagens mínimas sobre os oponentes. Mesmo um bom jogador, por vezes, tem uma vantagem mínima sobre os adversários no curto prazo já que neste horizonte temporal, o factor sorte pesa muito.

No longo prazo, pelo contrário, as várias pequenas vantagens tornam-se numa notória e substancial (e lucrativa) vantagem sobre os restantes jogadores.

O facto do poker ser um jogo de pequenas vantagens relativas gera a grande variância que os jogadores enfrentam neste jogo.

Se pensam que basta sentarem-se numa mesa para imediatamente destruírem os adversários mais fracos, então estão-se a colocar numa situação psicologicamente perigosa, já que o nível de sucesso real vai ficar aquém do esperado.

Na realidade, muitos jogadores têm uma vantagem sobre os adversários bem menor do que pensam. Esta crença...

  • ... impede-vos de ver o quanto contribuem para os downswings, p.ex.. impede-vos de registarem e corrigirem os vossos erros.
  • ... faz-vos entrar em tilt mais rapidamente já que a responsabilidade do que acontece parece estar mais correlacionado com o que o adversário faz do que com as vossas próprias acções.
  • ... faz-vos pensar que não precisam de continuar a trabalhar na melhoria do vosso jogo. "O que devo fazer se eles me batem de qualquer forma?“

Se, por outro lado, actuarem de forma realística e com determinação, então podem aceitar a vossa responsabilidade e aceitarem os factos. Não existe qualquer razão para se esconderem, mas também nenhuma razão para sucumbirem a ilusões de grandeza após uns meros meses a jogarem poker.

Se investirem na melhoria do vosso jogo, se forem dedicados e mantiverem uma perspectiva adequada, então terão sucesso proporcional à qualidade do vosso jogo. Isto inclui verem os fish como realmente são: adversários e jogadores que têm a mesma probabilidade matemática que nós.

Por outras palavras, haverá sempre algum fish que nos dá uma bad-beat. É inevitável! Deveremos perder o auto-controlo por um pior jogador eventualmente atingir algo na mesa? o que não poderia deixar de acontecer alguma vez porque as probabilidades são iguais para todos!

Reestruturação Mental

O que eu tentei fazer na última secção foi um exemplo da chamada reestruturação mental, uma abordagem que já encontraram no fórum. Por exemplo, um jogador descreve as suas bad beats constantes que o começam a  deixar furioso, mas outro jogador responde que no longo prazo este irá lucrar com as más jogadas destes fish.

Reestruturar significa colocar algo numa perspectiva diferente, ver algo de uma forma distinta ou num contexto diferenciado, ou então apenas interpretar um acontecimento de forma original. Este é um processo que a consciência humana executa permanentemente. Constantemente recebemos impressões exteriores e processamo-las numa estrutura e avaliamo-las de acordo com essa escolha. Se surgem novos impulsos ou impressões, então é necessário reavaliar a situação e colocá-la num contexto mais adequado, se necessário.

De certa forma estou a explicar a reestruturação mental de uma forma generalista para permitir que, de futuro, possam fazer as vossas próprias adaptações e aplicações a este processo. Esta reestruturação mental é um assunto individual, já que algo que funciona para outra pessoa pode não ser adequado às vossas necessidades.

Um exemplo: Alguém que já foi mordido por um cão pode não reagir da mesma forma ao comentário da sua namorada sobre quão giro é o cachorro que viu passar. No entanto, se considerarem a  hipotese de  cão que o mordeu ter ficado aborrecido quando lhe tiraram a bola com que este brincava, então a vossa fúria irá desaparecer e terão feito uma reestruturação mental apropriada à vossa necessidade.

Se reflectirmos sobre a reestruturação mental e sobre o que ocorre enquanto a executamos, então percebemos que Podemos decidir como interpretar o que nos acontece. O que pode parecer positivo a alguém pode ser detestável para outra pessoa. Existem, de facto, espaço para interpretações pessoais.

Até agora, tudo bem. Provavelmente já estarão algo familiarizados com este assunto, mas raramente aceitamos a real subjectividade das coisas. Quase sempre pensamos que a nossa estrutura escolhida para análise da realidade é o mais objectiva possível (p.ex. a expressão:. 'Eu não penso que é, é mesmo').

 

Reestruturação: colocando as coisas num contexto diferente

No poker também temos o poder de decidir como interpretar as coisas. Temos a escolha de criar cenários mais ou menos aceitáveis: "Eu perco sempre que tenho AK, então não vale a pena jogar estas mãos" ou uma alternativa algo mais construtiva: "Há uma parte do jogo que depende das probabilidades. Mais tarde ou mais cedo, elas começarão a beneficiar-me!" ou algo parecido.

Escolham uma estrutura que vos seja útil. Há muitas sugestões nas secções de psicologia e de estratégia e mesmo de alguns jogadores no fórum. É importante que essa estrutura vos seja confortável e seja plausível. Claro que também podem manter os velhos hábitos. Não obstante, eu quero motivar-vos a examinarem o que realmente pensam sobre os downswings, entrar em tilt, o poker, na verdade, sobre qualquer coisa, de maneira que compreendam a liberdade que têm em decidir como interpretar as coisas que vos circundam. Experimentem. É difícil quebrar velhos hábitos mas a prática facilita qualquer coisa.

Pensem sobre uma situação que vos costuma afligir e avaliem de que forma poderiam interpretá-la de uma forma positiva. Tentem encontrar uma estrutura de interpretação positiva que vos leve a lidar de melhor forma com este problema. Como é que outra pessoa avaliaria esta situação? Poderão existir consequências positivas derivadas de uma ocorrência negativa? Muitas vezes acontece que algo positivo é retirado de uma situação considerada negativa. É importante terem esta noção. Experimentem as diversas possibilidades.

Sumário

  • Tentem ser realistas. Tanto os jogadores de top como amadores sentem variância nos seus ganhos. No entanto, existe uma grande diferença na forma em que estes lidam com esta realidade.

  • Mesmo que seja um alívio psicológico, retirar pressão sobre o seu jogo, muitos jogadores não têm uma vantagem assim tão grande sobre os chamados fish como poderiam imaginar. Concentrem-se no vosso jogo e procurem possíveis vantagens. Respeitem os vossos adversários. Se entrarem em tilt graças a um fish, então ELES é que terão vantagens sobre vós!

  • Invistam tempo no estudo de artigos sobre os diferentes tipos de jogadores. Desta forma, estarão melhor preparados e menos susceptíveis a entrar em tilt porque terão sempre uma estratégia alternativa.

 

Sobre o autor: Robert Langer é um consultor psicológico e treinador residente em  Saarbrücken. Ele também ensina Psicologia numa conhecida escola alemã de medicinas alternativas e organiza seminários e conferências sobre NLP, psicologia de resolução de conflitos e tipologias psicológicas.