Atualizado em 07 Jul 26 por

Tilt: Bad beats e Variância

As minhas emoções não importam

Para os jogadores de poker, as bad beats e a variância são realidades incontornáveis, e ninguém, com um mínimo de conhecimento, poderá negar esta evidência.

O fórum PokerStrategy está repleto de testemunhos "brutais" de variância, que, geralmente são seguidos por comentários como "Isso é completamente normal", "Essa forma de jogar é lucrativa no longo prazo", "a variância faz parte do poker", etc...

Os criadores da thread, normalmente, já sabem estes factos, mas isso não melhora a sua situação. Sabemos os factos, mas os swings e muitas bad beats consecutivas ainda nos incomodam e impedem de jogar ao nosso melhor nível.

Porque será que acontece isto? Nós compreendemos o que sucede a um nível racional, mas ainda assim, ficamos abalados em termos emocionais. Eu tento utilizar a minha racionalidade para me manter controlado, porque eu compreendo o que está a acontecer, mas as minhas emoções não querem saber disto. Elas empurram-me para baixo e esmagam-me.

Consequentemente, eu posso dizer a mim mesmo que o downswing é perfeitamente normal centenas de vezes, que devido ao tilt e à minha má disposição, o meu jogo não irá melhorar, para não falar das perdas monetárias em que vou continuara incorrer.

 

O Ponto de vista Psicológico

Vamos dar uma vista de olhos ao modo como a nossa percepção funciona. Através dos nossos cinco sentidos (visão, audição, tacto, olfacto e paladar), são enviados estímulos para o nosso cérebro. Então, ocorrem diversos processos neurológicos complexos , resultando na transformação destes estímulos em impressões sensoriais na nossa consciência. Estas impressões sensoriais são chamadas de "submodalidades". Elas são impressões como: quente, frio, claro, escuro, duro, mole, doce, azedo, etc

Por favor tenham em conta que quando falamos nestes conceitos já somos confrontados com uma primeira barreira, nomeadamente ter de descrever sensações utilizando palavras ou linguagem. Na medida que é possível descrever estas impressões com a nossa linguagem, ocorrerão inevitavelmente equívocos e frases supérfluas quando o tentarmos fazer. Teremos de ignorar estes problemas, por agora.

 

A voz da razão diz: "está tudo ok!", mas os sentimentos negativos permanecem

Quando nos deparamos com várias bad beats consecutivas nas mesas durante um downswing, recebemos sinais negativos cerebrais como se fossem picadas do nosso cérebro. A nossa consciência pode estar a dizer "mantém-te calmo, está tudo bem", mas os danos já estão feitos a um nível subsconsciente ou emocional.

Esta é a razão porque poderemos tentar racionalizar quanto quisermos (tentando enquadrar a experiência numa estrutura compreensível e racional), mas o mal-estar permanece e não passa.

Mas isto não acaba aqui. Devido a algumas implicações do nosso cérebro, estes estímulos vão gerar algumas reacções subconscientes e automáticas. Da mesma forma que o condicionamento Pavloviano dos cães, ocorrem reacções cerebrais, muitas das vezes, desproporcionadas e pouco razoáveis. Como por exemplo o pensamento: " Meu Deus, lá vamos nós novamente...".

Pode ocorrer que uma determinada frase, palavra, como no nosso exemplo, ou mesmo um determinado tom de voz, situação ou toque possam ser assumidas pelo cérebro como um estímulo negativo. Pode ter origem visual, sensitiva, auditiva e estarem ligados a um acontecimento negativo que despoleta reacções também elas negativas. Nem é preciso dizer que o inverso também acontece. Existem estímulos que despoletam reações positivas sejam, por exemplo, músicas, fotos, memórias ou mesmo a visão das fichas a direccionarem-se para a nossa stack.

Se algum destes estímulos ocorre repetidamente, então a experiência negativa repete-se. Por exemplo quando ocorrem bad beats sucessivas, o efeito negativo de cada uma adicional vai sendo maior. Até poderemos rir da primeira bad beat de uma sessão, mas quando a terceira bad beat ocorre começamos a sentir um desconforto e depois da quinta, o nosso bom humor simplesmente desaparece! Após alguns dias ou semanas de downswing alguns de nós começam as sessões de jogo numa *pilha de nervos condicionados*. Para o nosso nível de jogo ser simplesmente destruído não são necessárias muitos destes despoletadores, como no início do mau período. Bastará então apenas uma situação negativa e o dano psicológico acumulado dos últimos tempos tratará de vos desconcentrar.

Vigiem-se

Estes processos funcionam como uma espécie de filtro subconsciente que tolda a nossa visão do que objectivamente está a ocorrer com o nosso jogo ou na mesa. Não conseguimos avaliar as situações como acontecimentos autónomos e então ficamos como que bloqueados, não conseguindo reagir da forma mais adequada às diferentes situações.

Tentem uma perspectiva diferente:
Como é que se sentem realmente?

Pelo contrário ficamos *bloqueados*. Estagnamos e ficamos desorientados, não conseguindo alterar a nossa forma de jogar.

Se fossemos computadores, então poderíamos reagir da forma apropriada a cada situação e poderíamos avaliar cada situação de uma forma objectiva e matemática, sem sermos afectados pelas experiências passadas. Como não somos autómatos, temos necessariamente de assumir que as nossas emoções alteram a nossa capacidade de avaliarmos as situações de forma racional.

Parem! Talvez haja alguma forma de nos mantermos alerta destes processos destrutivos do nosso jogo e de reduzirmos o tilt. Nesse sentido, darei alguns conselhos que poderão ser úteis se os seguirem:

Observem-se e perguntem-se a vocês mesmos:

  • Como é que me sinto agora?
  • Quão boa é a minha situação actual?
  • A minha condição actual corresponde à forma como me sinto?
  • Estarei mesmo capaz de jogar?
  • Ainda estou capaz de jogar ao meu melhor nível?

A vossa capacidade de introspecção, p.ex. a capacidade de olharem para o vosso interior e observarem-se atentamente é, geralmente, sobrestimada e pode ser deteriorada pelo stress. A vossa consciência prende-se na situação negativa e pode originar soluções ou alternativas obscuras (como alce que é atropelado depois de encandeado pelos faróis de um carro).

Um exercício

Imaginem-se à frente do monitor mas de forma exterior, como se vos observassem de longe e de uma posição elevada. Como analisariam este jogador que está ali sentado?

  • Estará ele a jogar bem ou a cometer erros óbvios?
  • Consideram que este jogador está num bom estado psicológico? Ou estará ele em tilt? Talvez cansado?

Imaginem-se como sendo amigo ou treinador desse jogador e o vosso objectivo é ajudá-lo:

  • Que erros está ele a cometer?
  • Que conselhos poderemos dar a este jogador? O que deverá ele fazer?
  • Se estivessem na situação dele, o que fariam?

Este exercício pode ajudar-vos a olharem para o vosso jogo de uma forma distanciada e mais objectiva. Não subestimem o feito de alteração de perspectiva. Esta situação contrafactual ou hipotética é real para o vosso cérebro e pode ajudar-vos a adquirir nova informação.

O Interruptor - Modo segurança para emergências

Se nada estiver a funcionar de forma adequada no vosso jogo e não têm forma de manter a situação sob controlo, então precisam de um interruptor, de um stop, um modo segurança para emergência. O objectivo é interromper todos os processos descritos acima no texto. Uma pausa no jogo poderá funcionar, mas uma solução melhor passará por começar uma actividade completamente diferente na qual consigam estímulos intensos de forma a recuperarem a vossa concentração e que vos ocupe a mente plenamente. 

 

Têm de dizer 'stop'! Façam outra coisa!

Um simples intervalo não é suficiente, já que continuarão a vaguear pelo vosso apartamento, ainda a pensarem na situação negativa. Em vez disso, procurem uma outra actividade que tenham de executar de uma forma menos automatizada.

Se por exemplo, costumam fazer desporto, por exemplo corrida, então isso não ajudará porque não haverá grande vantagem em executar tarefas já muito automatizadas e que requerem pouca atenção. Não estarão suficientemente ocupados ou concentrados a não ser que essa actividade tenha conotações realmente positivas, o que é bastante incomum para tarefas rotineiras. 

Neste caso,poderá ser adequado fazerem bowling ou qualquer outro desporto que não costumam praticar por hábito. Outras alternativas podem passar por ir ao cinema, a um centro de lazer, passear numa outra cidade, beber uns copos com os amigos (com moderação claro, e não como solução permanente como ocorre com alguns jogadores de poker), etc. 

Pensem em actividades diferentes e nas pessoas que podem ir convosco antes de jogar. Vocês poderão então recorrer a esta lista mental ou física se essa necessidade aparecer.

Ganhem a capacidade de dizer 'Stop!', tal como adquiriram a capacidade de investir milhares de horas na melhoria do vosso jogo, aguardando pacientemente à frente do monitor e adquirindo proficiência de uma forma, por vezes dolorosa em inúmeras sessões de jogo. Compreendam que o trabalho no lado psicológico do jogo é tão importante como as habilidades técnicas.

Estar convencido que podem inverter a situação, ainda que estando em completo tilt, é uma enorme falha como jogador.

Gostamos de acreditar que ainda estamos com o controlo total da situação de uma forma racional mas, devido ao descrito acima, isto é na verdade uma mera ilusão que brinca connosco. Nesta situações somos incapazes de jogar da forma correcta, não importa quanto o desejamos. A nossa consciência é apenas uma pequena parte do que ocorre na nossa mente. A maioria é subconsciente. Isto quer dizer que não nos apercebemos da maioria das suas actividades. Uma pequena parte destas actividades demonstra-se através dos sonhos, sentimentos e memórias. A nossa razão situa-se numa ponta do iceberg que é a nossa mente, tal como um naufrago que se sonha ser capaz de dirigir o iceberg em que está encalhado. 

Visualização

O subconsciente humano não distingue entre passado, presente e futuro. Nos sonhos, as nossas experiências são directos,não sendo filtrados pela nossa razão. É por isso que as técnicas de visualização funcionam tão bem e têm sido utilizadas em desportos de alta competição nas últimas décadas. No início dos anos 70, toda a gente estranhou quando os corredores de trenó começavam a fazer exercícios com os olhos antes da corrida. Actualmente, sabe-se que as técnicas aí utilizadas são muito úteis na preparação de provas de ténis, golf, Fórmula 1, etc. 

 

Um exercício

Coloquem-se confortáveis antes ou durante uma sessão de jogo, fechem os olhos e tentem visualizar-vos a saírem da sala se a sessão começar a correr verdadeiramente mal.

 

Observem-se como se estivessem no exterior!

Não se imaginem na primeira mas na terceira pessoa, como se estivessem a ver um filme ou uma foto tirada vossa.

Simplesmente imaginem-se a levantarem-se, deixando essa situação para trás, quer em termos físicos como em termos mentais. Repitam esta visualização, por exemplo como parte da preparação de uma sessão. Da mesma maneira que algumas acções têm de ser repetidas muitas vezes antes que tenham o efeito desejado, as visualizações também terão de ser revisitadas mais de uma vez para cumprirem o seu objectivo. O efeito de repetição da visualização provoca que a consciência registe essa imagem como quase sendo real, e de alguma maneira conduz à mentalização para essa acção.

Cuidado: Não imaginem que a vossa sessão corre mal, ao invés disso simplesmente imaginem-se como tendo a liberdade de abandonarem a sessão quando quiserem. É algo que faz toda a diferença.

Claro que também se podem visualizar a manterem-se perfeitamente calmos e relaxados, continuando a jogar ao vosso melhor nível com um sorriso nos lábios independentemente de qualquer vicissitude que possa ocorrer. Ou então até se podem visualizar a simplesmente não entrarem em tilt e a fazerem todas as jogadas adequadas para cada situação de uma forma serena e objectiva. No entanto, eu recomendaria iniciarem da forma indicada, progressivamente a visualização permitir-vos-á obter resultados mais avançados e satisfatórios. Não comecem com o maior problema, trabalhem de uma forma gradual!

Esta técnica requer prática, como qualquer outra actividade. A partir de determinada altura vocês também utilizaram a tabela de mãos iniciais (SHC) durante dias ou semanas. Estas técnicas funcionam da mesma forma. Quanto mais familiarizados vocês estiveres com elas, melhores serão os resultados.

Tentem criar imagens na vossa mente tão mais atractivas e coloridas o possível. Além disso, não mantenham como um imagem rápida mas tentem mantê-la algum tempo, talvez três ou quatro minutos. Se tiverem dificuldades em concentrarem-se nisso durante muito tempo, vocês podem imaginar uma espécie de *filme* e imaginarem, por exemplo o que costumam fazer depois de uma sessão de jogo. Deixem-se guiar pelos sentimentos positivos intensos que obtêm através da visualização. Sintam a força e satisfação que retiram do facto de serem livres de pararem exactamente quando quiserem.

Sumário

  •  Aprendam a observarem-se de uma forma exterior e treinem a vossa capacidade de introspecção. O Poker é um jogo em que têm de analisar tão atentamente os adversários como a vocês próprios.

  • Devem desenvolver um plano de emergência para situações em que começam a perder o controle e estão deixar de jogar ao vosso melhor nível (p.ex. quando entram em tilt), o que corresponde ao que aprenderam sobre reagir da forma adequada em determinadas situações.

  • Pensem que irá ser útil aceitar que o tilt faz parte do jogo assim podem experimentar soluções para minimizar os seus efeitos. Desta forma não desperdiçarão tempo ou energias negando esta realidade inevitável, mas trabalharão em formas adequadas de lidar com esta situação e de preservar a vossa banca.

 

Sobre o autor: Robert Langer é psicológo, treinador e consultor que trabalha em Saarbrücken. Ele também ensina Psicologia numa grande Universidade Alemã de medicinas alternativas, e realiza seminários em NLP, psicologia de resolução de conflitos e tipologias psicológicas.