Guia F1 2015: Mercedes aterroriza em testes e se põe como favorita absoluta
NÃO HÁ COMO FUGIR. E não vale também a máxima de que treino é treino e corrida é corrida ou que ainda é muito cedo para dizer algo. A questão é que a Mercedes assusta e muito dificilmente perde a taça no Mundial que começa no fim desta semana. Novamente, a afinada esquadra trabalhou melhor que as rivais, aperfeiçoou o que já era quase perfeito e vai alinhar em Melbourne como favoritíssima ao título em 2015, talvez repetindo a mais recente história de sucesso vivida pela Red Bull entre as temporadas de 2010-2013.
O carro prateado nasceu vencedor e tem muito de seu antecessor, apenas com pequenas mudanças no desenho do bico, que veio mais estreito e baixo, além de inovadoras soluções aerodinâmicas que atendem perfeitamente ao novo regulamento. A fonte do poder dos alemães, o forte motor V6, também parece ter passado por uma atualização certeira e não apresentou falhas, demonstrando que a unidade de energia continua como grande arma dos rapazes de Brackley.
Ou seja, o pacote da Mercedes é de tirar o sono da concorrência.
E esse pacote também inclui poucas mudanças no quadro técnico. O experiente e metódico Paddy Lowe permanece como diretor-técnico, tendo o trabalho apoiado por Aldo Costa, ex-Ferrari, e Geoff Williams, ex-Red Bull, além de Andy Cowell na unidade de motor. Praticamente a única grande perda é a do engenheiro Jock Clear, que trabalhou diretamente com Lewis Hamilton nos últimos dois anos. Clear vai defender a Ferrari.
Além de dona do melhor bólido do grid, a equipe da marca da estrela de três pontas também possui uma das duplas mais fortes e equilibradas da F1. E isso ficou nítido na disputa travada por Lewis Hamilton e Nico Rosberg nas 19 provas de 2014. O inglês levou a melhor, vencendo 11 vezes e conquistando o título, mas o alemão também não entregou pontos, liderou grande parte do campeonato e sucumbiu apenas na parte final. Somente os dois estiveram em posição de brigar pela taça, tamanho foi o domínio imposto ano passado.
Agora, o enredo se repete. Novamente, Hamilton e Rosberg vão se colocar à frente dos demais e, a menos que haja uma hecatombe, vão protagonizar a luta pelo campeonato. A batalha deve continuar do ponto em que parou no ano passado, com um Lewis maduro, frio e focado e um Nico veloz, inteligente e ousado. A luta entre os dois ganha ares ainda mais cinematográficos se juntar ao roteiro a liberdade de competição proporcionada pela esquadra chefiada por Toto Wolff. Só isso já garante o espetáculo e impede a F1 de cair na mesmice.
Horas de voo
Os 12 dias de testes da pré-temporada na Espanha deixaram claro a intenção alemã de novamente comandar a classificação. O time andou a exaustão, procurando neutralizar todas as pequenas fraquezas — sobretudo no que diz respeito à confiabilidade. Apesar de andar bastante, falhas surgiram aqui e ali. A Mercedes priorizou o ritmo de corrida, a avaliação fatigante dos componentes e insistiu em detectar todo e qualquer problema.
Também não foi comum ver a equipe simulando treinos classificatórios. A esquadra prata sequer rodou com os supermacios durante os trabalhos, tamanha a certeza do carro veloz que construiu. Confiante também na força da unidade que empurra seus carros, a Mercedes usou apenas um motor nos testes.
De longe, foi a concorrente que mais percorreu voltas, especialmente com Nico Rosberg. O fôlego do vice-campeão de 2014 impressionou.
Ao todo, foram 6.121 km em 1.340 voltas nas três sessões de treinos, pouco mais de 400 km a mais do que a Sauber, o time que mais se aproximou da Mercedes neste quesito. Sozinho, Rosberg andou 3.463 km ou 759 voltas. Número bem expressivo, especialmente na comparação com o companheiro Lewis Hamilton, que fechou os trabalhos com 533 voltas. É certo lembrar que Lewis perdeu um dia de testes em função de uma febre e também teve de lidar com os problemas no W06, que o prenderam nos boxes.
Ainda assim, foi a mais rápida nos momentos finais e decisivos da pré-temporada. Na última semana de atividades, realizada entre os dias 26 de fevereiro e 1º de março, Barcelona acompanhou uma prévia do cenário que virá a seguir.
O tempo mais veloz da bateria foi registrado por Rosberg, em 1min22s792, em cima dos pneus macios, iguais aos usados por Valtteri Bottas na mesma sessão — no segundo dia de atividade da bateria final na Catalunha. A diferença para o finlandês, o segundo colocado na ocasião, foi de impressionantes 1s203. Foi a primeira vez que a equipe andou com os compostos de risca amarela.
Outra demonstração de força foi o desempenho Lewis Hamilton no dia seguinte. Enquanto Felipe Massa e Kimi Räikkönen se desdobravam sob os pneus supermacios e realizavam simulações de classificação no fim da manhã, Hamilton demorou a ir à pista na parte da tarde, mas quando foi, assustou. O inglês cravou a melhor marca do dia, usando os médios e ainda foi 0s240 mais veloz que Massa, o segundo, com os compostos de risca vermelha. E para desespero das rivais essa diferença pode ser ainda mais gritante, dependendo das condições encontradas ao longo da temporada.
O cenário apresentado pela Mercedes, portanto, serviu para confirmar sua superioridade e a confiança de que continua a equipe a ser batida.