Cabou. Pode fechar.
Spoiler
Nesta quinta-feira (19), os administradores do circuito de Nürburgring confirmaram que não realizarão o GP da Alemanha neste ano. Dois dias antes, os de Hockenheim também haviam reiterado que não tinham interesse em promover um evento em 2015. E assim o Mundial de F1 vai ter 19 corridas na temporada que começou no último domingo.
Mesmo sendo o país da atual campeã da F1, do maior campeão da história da categoria, de um tetracampeão e do último vice-campeão, a Alemanha não vai sediar um GP em 2015. Como pode?
Os erros que levaram ao cancelamento de uma das mais tradicionais provas do calendário são de ordem local — e o que se está fazendo neste momento em Nürburgring é corrigir tais equívocos. No entanto, esta notícia não deixa de ser um reflexo da profunda crise que envolve a F1 atual.
A falência de Nürburgring
O GP da Alemanha não acontecerá em 2015 porque, em 2012, o circuito de Nürburgring faliu. O complexo pertencia à empresa Nürburgring GmhB, de propriedade do governo do estado de Renânia-Palatinado — comparando com um cenário semelhante no Brasil, é como se a SPTuris, que tem a Prefeitura de São Paulo como sócia-majoritária e administra o Autódromo de Interlagos, quebrasse.
O Parlamento Europeu interviu e proibiu o governo de continuar injetando dinheiro na estatal, que declarou bancarrota em meados de 2012, com dificuldades para pagar as dívidas contraídas na transformação que promoveu em Nürburgring no fim da última década. Foram construídos novos prédios para o funcionamento de centros comerciais, hotéis e um parque de diversões – apelidado de NüroDisney – com uma montanha russa à margem da reta dos boxes. O retorno não chegou perto do esperado, e a dívida era estimada em R$ 1,1 bilhão de acordo com os valores do primeiro semestre de 2013. O assunto foi tema de uma extensa reportagem no GRANDE PRÊMIO em julho daquele mesmo ano.
Aliás, para que o GP da Alemanha pudesse acontecer por lá, foi necessário um acordo especial com o diretor-executivo da F1, Bernie Ecclestone. Na pista, Sebastian Vettel venceu pela primeira e única vez em casa.
Desde então, o processo de venda foi concluído e o autódromo passou a contar com um novo dono — a fabricante de peças para carros Capricorn, com sede em Dusseldorf. E este optou por rever alguns dos planos que existiam antes, dentre eles, o GP de F1.
A novela e o cancelamento
Não há nem como culpar Ecclestone e a F1 pela falência de Nürburgring. Tratou-se de uma questão local, e a realização da corrida em 2013 já exigiu uma grande cooperação.
Reflexo da crise da F1 é o fato de não ter ninguém na Alemanha para pagar pela corrida. Desde que surgiram as grandes dúvidas a respeito do GP de 2015, imaginava-se que a Mercedes poderia entrar na história e garantir o evento. Até o momento, isso não aconteceu.
As taxas que Ecclestone cobra hoje em dia para quem deseja receber GPs são altíssimas. As provas mais antigas ainda pagam valores mais baixos, e acredita-se que Nürburgring tivesse de desembolsar algo em torno de US$ 15 milhões (quase R$ 50 milhões em valores atuais) neste ano. Para algumas das novíssimas provas asiáticas, este valor pode ser até três vezes maior.
A expansão para o Oriente neste século se deu principalmente por isso. Na Europa, os organizadores não acompanharam as altas, e algumas provas tradicionais foram morrendo, como no caso do GP de Portugal. O GP de San Marino, outro histórico, foi disputado pela última vez em 2006. O GP da França morreu em 2008. Por outro lado, países como o Bahrein, os Emirados Árabes Unidos e Cingapura usam o Mundial para se promover. Outros investiram, mas já se foram: Turquia, Índia e Coreia do Sul.
Certa vez, Ecclestone usou de uma retórica que não deixa de estar correta para justificar seu ponto de vista: “Quem sabia onde o Bahrein ficava?”.
Em 2016, o Azerbaijão vai receber o GP da Europa. O plano é usar o GP para tentar consolidar uma imagem de país ‘ocidental’ ou ‘europeu’ — o país fica na divisa entre os dois continentes.
O crescimento das taxas pagas pelos promotores teve sua importância, claro, afinal os custos para as equipes subiram vertiginosamente. Trata-se de uma parcela significativa da renda do Mundial. Ao mesmo tempo, isso criou uma bolha, inflou o mercado, e está colaborando para o fim de mais uma prova tradicionalíssima.
Em janeiro, um porta-voz do autódromo alemão disse à agência de notícias 'SID': "Ficaríamos muito satisfeitos se neste ano a F1 corresse novamente em Nürburgring, mas também precisa ter um preço acessível para o operador”.
"Desde que eu me recordo existe um GP da Alemanha e é lendário, como o da Inglaterra. Partes fundamentais da temporada da F1. Me deixa muito desapontado que não tenha sido fixado ainda no calendário", falou Nico Rosberg no início de fevereiro, quando começava a crescer a incerteza. "Existem tantos fãs na Alemanha, e o país é tão representativo no esporte comigo, Sebastian e outros alemães e a Mercedes. Grande parte da F1 é a Alemanha, então espero que seja resolvido.”
Não foi. Hockenheim também não podia assumir a bronca. Desde 2008, há um revezamento entre os dois circuitos, e o circuito de Baden-Württemberg recebeu um público decepcionante para a vitória de Rosberg em 2014, mesmo com muitas promoções na venda de ingressos.
“Devido a limitações de tempo, razões organizacionais e econômicas, não faz sentido sediar a corrida deste ano”, afirmou nesta semana um porta-voz de Nürburgring.
Está muito errado a F1 não conseguir encontrar um meio de fazer uma corrida em um país tão importante para si própria. É mais um recado de que é preciso se reinventar para retomar o crescimento.
Se serve de consolo, ao menos alemães não precisam ir muito longe para acompanhar corridas. Spielberg, na Áustria, Monza, na Itália, e Spa, na Bélgica, não ficam muito além das fronteiras. Ainda assim, não há nada como a própria casa.
E não pense que Nürburgring vai ficar parado, vazio, só porque não se acertou com a F1. Inúmeros eventos estão previstos para o ano, com destaque para uma etapa do Mundial de Endurance em 30 de agosto.